Kerley Carvalhedo

Sentimentos anônimos

Grande parte das coisas humanas não se explicam. Alguns sentimentos podem ser experimentados, sentidos, mas não explicados. Nasci antes do advento da internet; porém, acompanhei sua ascensão durante minha adolescência. Foi nesse período que surgiram as primeiras interações virtuais com amigos de outros lugares.

Grande parte das coisas humanas não se explicam. Alguns sentimentos podem ser experimentados, sentidos, mas não explicados. Nasci antes do advento da internet; porém, acompanhei sua ascensão durante minha adolescência. Foi nesse período que surgiram as primeiras interações virtuais com amigos de outros lugares.

Logo apareceram as primeiras salas de bate-papos e em uma dessas salas conheci um jovem moço com quem me correspondia diariamente. Durante várias horas, eu interagia com aquele estranho. O tempo passou, e em pouco mais de um ano já sabíamos quase tudo um sobre o outro.

Quando mais jovem, eu era introvertido, tímido, introspectivo e caótico. Entretanto, sentia-me confortável com esse tipo de interação pela internet. A sensação era reconfortante, quase como dois amigos que se conheciam há muito tempo. Todos os dias, lá pelas altas horas da madrugada eu entrava no chat e conversava com o meu amigo, que nunca tinha visto e jamais veria na vida real.

A vida mudou, o tempo ficou parco, e as conversar foram ficando lacônicas. Não me lembro bem como aos poucos fomos deixando de interagir; talvez os compromissos da vida adulta tenham ofuscado o tempo sem que nos déssemos conta… Era algo que eu gostava muito de fazer, todavia abandonei esse hábito, de repente o mundo real ao meu redor me pareceu mais interessante.

Outro dia revisitei todos os canais de comunicação que usava, e alguns que ainda uso com mais frequência, para fazer atualizações de dados e informações. Encontrei as conversas arquivadas do meu “amigo virtual”, aquele com quem eu trocava mensagens todos os dias.

Em todos os séculos, na humanidade, houve grandes barbáries; então, não é de se pasmar que em tempos tecnológicos venha a acontecer o mesmo. Tudo na vida tem seu lado bom e, também, seu lado sombrio. Há perigos por toda parte, sempre.

Graças ao formidável uso da internet, tive a oportunidade de conhecer – na vida real – muitas pessoas maravilhosas, as quais, até estão, só conhecia pelo mundo virtual, por meio das redes sociais.

Agora, mais do que nunca, a internet tem sido a grande aliada em tempos de pandemia. Não há como negar que a tecnologia é o que temos de mais revolucionário, causadora de grande frenesi no último século.

Os encontros virtuais provocam sentimentos inusitados. Eu sabia muito sobre o meu amigo: a história de vida, o nome do gato, o gosto musical e até o seu passatempo favorito. Nasceu um sentimento fraterno: um sentimento de carinho, amor, devoção e ternura. Com a contagem dos anos aprimoramos nossos assuntos; falávamos sobre política, economia, literatura, família e sonhos. Na época eu estudava à noite, na volta do colégio eu ia correndo ao computador para ver se tinha algum recado deixado pelo meu amigo virtual.

Hoje, ao reler suas mensagens, senti saudades e desejei ardentemente ter mais uma daquelas longas conversas que tínhamos. Acostumei-me tanto a ele, que marcava no relógio a hora de entrar na sala de bate-papo. Não sei o que aconteceu, nem o porquê sumiu. Não há muito o que fazer. Esses são os encontros e desencontros da vida.

Prefiro deixar assim, como parte da minha experiência no mundo virtual, de alguém que um dia fez parte do meu cotidiano recluso, anônimo e secreto, alguém de quem sempre irei sentir falta. O último “oi” que escrevi faz dois anos, até agora nenhum sinal, ninguém apareceu, nenhuma resposta. Agora não resta mais nada além das conversas arquivadas e o grande silêncio

Imagem/Pexels