Kerley Carvalhedo

O Direito de Desistir

Há quem acredite que desistir é fracasso. Bobagem das grandes. Se há algo que aprendi com a vida, e com repartições públicas, é que persistir às vezes é só teimosia mal disfarçada.

Há quem acredite que desistir é fracasso. Bobagem das grandes. Se há algo que aprendi com a vida, e com repartições públicas, é que persistir às vezes é só teimosia mal disfarçada. Há filas que nascem para jamais andar, senhas que não foram feitas para ser chamadas e promessas que já nascem com obsolescência programada. Mas nós, criaturas otimistas por engano, insistimos. Como se houvesse prêmio no fim da insistência humana. No máximo, há um carimbo.

Outro dia, fui renovar um documento. Saí de casa disposto, convicto de que tudo daria certo. Um erro, evidentemente. Cheguei ao guichê e descobri que faltava uma foto, um comprovante, uma assinatura. Faltava, na verdade, a paciência de Deus. A atendente, com aquela expressão de quem tem o poder de decidir o destino de civilizações inteiras, me informou que nada podia fazer. Uma mentira elegante: podia, sim. Podia, por exemplo, sorrir. Não sorriu.

Pensei então nos conselhos motivacionais que infestam redes sociais. Nunca desista, persista, acredite. Sempre ditados por gente que nunca pegou transporte público às sete da manhã. Persista, sim, mas de preferência num país funcional. Porque acreditar, por aqui, se tornou um esporte radical. Quem insiste demais acaba machucado, geralmente no bolso, às vezes na alma.

Há, no entanto, uma leveza misteriosa em desistir. É como tirar sapatos apertados depois de uma festa em que não queríamos estar. Desistir devolve a dignidade. Encerramos a luta contra a fotocópia que nunca dá certo, contra o site que cai antes do pagamento, contra a esperança de que o sistema vai ser rápido hoje. Não vai. Há diagnósticos que não precisam de exames: basta olhar o funcionário que fecha o guichê na sua vez.

E assim voltei para casa com a mesma papelada intacta. Alguém me perguntou se eu tinha resolvido tudo. Disse que sim: resolvi que não voltarei tão cedo. Nem tudo precisa ser vencido. Há batalhas que ficam mais bonitas quando largadas no meio. Desistir, afinal, é a única vitória garantida que nos resta, e a que exige menos atestado.