Kerley Carvalhedo

O Natal de Outros Tempos

Naquele tempo havia pão, esperança e muitas luzes – estou falando do Natal de outros tempos. As casas recebiam suas primeiras árvores no início de outubro, como um prenúncio da chegada do Natal.

Naquele tempo havia pão, esperança e muitas luzes – estou falando do Natal de outros tempos. As casas recebiam suas primeiras árvores no início de outubro, como um prenúncio da chegada do Natal. As luzes natalinas eram acesas todas as tardes, antecipando a fabulosa data. Dezembro já tinha começado, e só nesta semana percebi, pelas grades do portão da vizinha da frente, ela tentando enfeitar uma pequena árvore. Tímida, com meia dúzia de luzes e quase nenhum enfeite. Presumo que isso se deva à falta de recursos para deixar a árvore mais pomposa, ou talvez ela esteja desesperançada, assim como eu.

Outro dia fui a um estabelecimento e, como quase nada passa despercebido aos olhos de um bom observador, a decoração de Natal também não passou. Na entrada, uma árvore inteiramente branca, os piscas-piscas azuis e os demais enfeites prateados, outros de cor pálida, triste, como tem sido nas últimas décadas.

Quando eu era menino, minha mãe nos levava, a mim e à minha irmã, até a Rua 10, no bairro Francisco Coelho, na região da Velha Marabá, minha cidade natal. Íamos duas vezes por ano: uma no Dia das Crianças, para escolhermos um brinquedo, e outra no Natal, para comprarmos uma roupa, que serviria para as festividades do ano seguinte. Nada me parecia mais mágico do que passar, naquele dia, pelas ruas dos comércios naquele período. As vitrines das lojas estavam todas coloridas, em tons de vermelho, verde e dourado. Cada loja exibia um espetáculo, músicas natalinas, muitas luzes, e uma serenidade nas pessoas. Não por conta do consumismo, mas pelo verdadeiro espírito brasileiro de celebrar a tão esperada data.

À noite, era hora de ir embora. Morávamos em um bairro longínquo, longe do centro, do outro lado da extensa e quilométrica ponte ferroviária. Era uma verdadeira viagem até minha casa. Na volta, mesmo exaurido, eu ficava sonhando com o mundo de luzes do Natal, olhando a fachada das lojas pela janela do ônibus. Em algum momento da viagem, o trem que vinha das minas de Carajás passava ao nosso lado. Aquilo tornava a viagem ainda mais mágica. Era o trem que vinha apitando pela cidade, com suas locomotivas fumaçando, como aqueles trens do século passado, movidos a lenha.

Pois ontem, depois de tantos anos, sonhei com o trem da minha infância, todo iluminado, como só ele sabia ser. De longe, podia-se ouvir o som do seu apito, cortando a noite adentro e desaparecendo na escuridão.