Foi há 65 anos, no início dos anos 60. Ela tinha 15 anos e ele, 17. Ela vinda do interior, ele da cidade grande. Nada muito extraordinário nisso. O pai dela organizava as chamadas matinês, que na verdade eram forrós de chão batido. Ele mesmo tocava pife, aquele instrumento simples feito de madeira, taboca ou o que houvesse à mão. Era o som possível, e era o suficiente.
Numa dessas tardes o rapaz apareceu. No interior, aparecer já é um acontecimento. A garota era bonita, apesar da vida dura de retirante, e não perdia uma roda de forró. Ele a viu de longe, aproximou-se, estendeu a mão e ela aceitou sem pensar muito. Dançaram como se já soubessem que aquela dança duraria pouco, mas ainda assim importava.
O pai dela percebeu logo. Pais costumam perceber quando já é tarde. Proibiu os dois de se encontrarem, mas houve ainda um último momento. Ele disse que a amava, ela disse que também amava, e antes que viesse o primeiro beijo o pai chegou, expulsou o rapaz e levou a filha para dentro. Naquela noite decretou que nenhuma das cinco filhas dançaria com rapaz algum, garantindo castigo para quem insistisse. E castigo, ali, nunca era apenas palavra.
Impedido de vê-la, o rapaz escreveu uma carta e arrumou quem a entregasse. A carta chegou às mãos dela, mas o pai soube antes que ela conseguisse ler. Tentou esconder o papel na fresta da parede do quarto, mas não deu tempo. Apanhou. Quando o rapaz ficou sabendo, foi procurá-la à noite, movido mais pela urgência do que por coragem, e propôs que fugissem. Ela não queria desse jeito, mas foi assim mesmo.
O casamento durou menos de um mês. Ela engravidou, ele foi embora, e a menina nasceu sem pai. Mais tarde ela se casou de novo, construiu outra vida, teve dez filhos e encontrou o tipo de felicidade possível. Já o rapaz seguiu sua própria rota: casou e descasou várias vezes, teve muitos filhos, até morrer aos 80 anos, sozinho, num casebre do interior. Algumas histórias acabam desse jeito, cada um ficando com o que sobrou.
A moça dessa história é minha avó. A menina é minha mãe.
Quanto à carta, ninguém sabe o que dizia. Perguntei à minha avó, mas ela não lembra. Ele nunca contou. Nunca o conheci, mas gosto de imaginar que era uma carta simples, talvez uma confissão apressada, talvez só um pedido: venha comigo antes que o mundo nos impeça.
