Se eu morrer amanhã

Vivo morrendo às vésperas. Quando me perguntam como estou, respondo que não passo desta noite. O problema — ou não — é que sempre passo. E assim me tornei um José, como o do poema de Drummond: “Se você morresse… Mas você não morre”.
Mas e se eu morrer amanhã? Não levarei saudades da polarização política, nem da direita ou da esquerda, das eleições, tampouco de Lula ou Bolsonaro. Também não sentirei saudades das últimas ex-primeiras-damas do Brasil, embora certamente leve comigo alguma saudade de FHC e de sua amada Ruth Cardoso.
Não sentirei falta dos falsos jantares de negócios, das formalidades nem da alta performance, essa obrigação de estar sempre produzindo, como se até o descanso precisasse apresentar resultados. Tampouco sentirei saudades dos coaches que contribuíram para a multiplicação de imbecis neste país, dos juros altos ou dos impostos exorbitantes. De Brasília, de toda a sua corja com seus grandes impérios, também não levarei saudades.
Se eu morrer amanhã, levarei saudades dos Beatles, do Queen, de Bach, Tchaikovsky e Chopin, mas também de Maria Bethânia, Caetano, Chico Buarque, Elis Regina, Cartola, Rita Lee e Cazuza. Sentirei saudades do forró, do pagode e do Carnaval brasileiro.
Não sentirei falta dos lugares onde não posso ser eu mesmo. Tampouco das reuniões de família ou dos pedidos de perdão — exceto pelas comidas preparadas pelas mãos da minha amada avó.
Das igrejas, apesar da minha admiração pelas liturgias, pelo canto gregoriano, pelas velas e pelo incenso, também não sentirei falta. Para o meu último adeus, dispenso toda e qualquer cerimônia fúnebre. Não quero cultos, missas de sétimo dia, tampouco homenagens. Afinal, já não estarei aqui para recebê-las. Das igrejas, sentirei saudades apenas do vinho e do pecado.
Se eu morrer amanhã, sentirei saudades da minha biblioteca, dos meus discos de vinil, dos bibelôs, dos charutos baianos e das cachaças de alambique.
Não menos importante, não sentirei saudades dos meus eventuais fracassos, da vida conjugal que não tive, da experiência de ser pai que não vivi, das crises existenciais, das rejeições nem do cansaço físico e mental. Tampouco sentirei saudades daquilo que a ausência do meu pai deixou em mim.
Por fim, não sentirei saudades deste mundo, que parece ficar cada vez mais chato e sem graça. Em suma, é melhor me condenar ao esquecimento. Quem sabe assim, caso eu não morra amanhã, consiga viver um pouco mais e melhor.