Sou avesso a gastos, desses que só acontecem quando a necessidade empurra. Comprar, para mim, é quase sempre virtual, impessoal, sem cheiro nem conversa. Ainda assim, naquele domingo inútil, saí de casa sem destino e fui parar numa dessas feiras ao ar livre, onde se vende de tudo: bugigangas, restos de memória, coisas que já não têm nome. Deus é testemunha de que eu não queria comprar nada. Tampouco vender. Só passar.
Caminhei devagar entre as barracas, observando o vai-e-vem de negociantes confiantes na própria lábia. Não funcionou comigo. Havia ali objetos que atravessaram gerações sem saber por quê: santos, estatuetas, bibelôs, palavra antiga, quase esquecida, como os dedos que um dia os colocaram em prateleiras limpas demais. Coisas pequenas, sobreviventes do tempo.
Olhei no relógio. Era hora de ir embora. Acelerei o passo em direção ao carro e, ainda dentro da feira, tentei desviar de uma senhora à minha frente. Não consegui. Por azar, ou distração, esbarrei numa barraca de santos e quinquilharias. As imagens balançaram como num terremoto doméstico. Um anjo caiu aos meus pés. Pequeno. Antigo. Com a asa quebrada.
Fiquei olhando aquele anjo no chão, indefeso, como se tivesse sido derrubado pela própria fé. Paguei o valor pedido sem discutir. Minha futilidade do dia. Levei-o para casa e o coloquei na estante, junto das outras miniaturas que não cumprem função alguma além de existir. A asa partida parecia menos um defeito e mais uma interrupção.
Agora, toda vez que vou sair, olho para o anjo. Ele olha de volta. Não me acusa. Não consola. Apenas lembra que algumas quedas acontecem sem aviso, e ficam.
