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Biblioteca

Carta a Neiva

Por Kerley Carvalhedo · · 10 min de leitura

— Neiva, você pode dar uma carona ao meu amigo Kerley quando voltar ao Breu?

— Sim, querida, sem problemas!

Ao regressarmos naquela noite — ou melhor, naquele início de madrugada — aos nossos lares, eu jamais imaginaria que aquela carona, aparentemente tão casual, seria o prelúdio de uma improvável amizade entre uma professora de Língua e Literatura e um jovem aspirante a escritor.

Lembro-me com absoluta clareza de que, já no caminho de volta para casa, ela me fez a seguinte pergunta:

— Meu filho, você faz o quê da vida?

Com a audácia de um aguerrido sonhador, respondi:

— Eu escrevo!

Entretanto, por dentro, era profundamente inseguro em relação àquele dificílimo ofício. Talvez, com o passar do tempo, eu aprendesse a lidar melhor com essa insegurança.

Após minha resposta, houve alguns segundos de silêncio que pareceram durar horas. Com sua sabedoria e sutileza, ela nos tirou daquele silêncio constrangedor.

A cena que acabo de descrever aconteceu há alguns anos. No entanto, às vezes, fico pensando em como seria minha vida, ou em quem eu seria hoje, se não fosse aquela carona imprevista. Aos poucos, nosso diálogo foi adquirindo um ritmo mais natural e agradável, e o conceito de uma verdadeira amizade começava a se desenhar.

Depois daquele primeiro contato, percebi que havia encontrado mais do que uma professora de Língua e Literatura: havia encontrado uma amiga. Nossos encontros, passeios, viagens e, sobretudo, nossas confidências são testemunhos de momentos intensamente vividos, que construíram essa relação de quase irmandade.


Neiva, você chegou à minha vida em um momento mais do que oportuno. Se eu acreditasse mais no transcendental, diria que uma divindade a enviou como um presente.

Quando você ler estas palavras, provavelmente estará enfrentando algumas das escolhas mais difíceis de sua vida e, sem dúvida, terá a sensação de que seu mundo está desmoronando. Se estiver se perguntando como sei disso, digamos apenas que passei a conhecê-la muito bem ao longo dos últimos anos.

Sempre me preocupei com você, Neiva. Mas não é exatamente sobre isso que quero falar.

Não posso lhe dizer o que fazer. Tampouco há algo que eu possa fazer para aliviar sua dor. Em vez disso, quero lhe contar uma história clichê.

Você bem sabe que nasci em uma família tradicional e religiosa. Nada de extraordinariamente anormal ou particularmente difícil de suportar dentro dos padrões exigidos durante minha adolescência. Entretanto, foi naquele ambiente que começaram a germinar meu caos interno e minhas neuroses.

Não posso deixar de reconhecer que tive uma boa infância. Fui um garoto como tantos outros, com uma diferença: era uma criança que pensava. Certa vez, ouvi minha mãe dizer:

— Pare de ouvir conversas de adultos! Criança não pensa!

Equívoco dela. Criança pensa, sim. E eu, quando adolescente, pensava ainda mais. Minhas primeiras crises existenciais nasceram justamente dos questionamentos pessoais e das inúmeras perguntas para as quais eu não encontrava respostas.

Desde cedo, apaixonei-me pelas artes, sobretudo pelos livros que me permitiam escapar da modesta vida cotidiana, de um lar empobrecido intelectual e culturalmente. Aquelas histórias me transportavam para as vastas planícies da imaginação. Por essa razão, nunca me senti verdadeiramente sozinho: sempre estive muito bem acompanhado pelos personagens que habitavam meus livros.

Apesar das possíveis felicidades da infância, não posso dizer o mesmo da adolescência. Foi uma fase conturbada, incompreensível até para mim mesmo. Era o momento das minhas descobertas sexuais, uma etapa em que a vida se intensificou de tal maneira que eu já não conseguia vislumbrar a possibilidade de ter uma existência considerada normal.

Entre tristezas, pequenas alegrias e episódios de profunda depressão, pensei diversas vezes em tirar a própria vida. No entanto, talvez a vida ainda tivesse algum propósito reservado para mim, pois nenhuma das minhas tentativas de pôr fim à própria existência teve êxito.

Neiva, quando eu era mais jovem, procurava encontrar uma forma para as coisas, uma razão, um desígnio. Contudo, muito do que acontecia comigo parecia fruto do acaso. Talvez, naquela época, me faltasse ânimo suficiente para viver.

Os anos se passaram, e precisei aprender a lidar com muitos problemas: a ausência da figura paterna, as crises de fé, os conflitos familiares, a depressão e, sobretudo, aquilo que mais me atormentou durante toda a adolescência e parte da juventude: minha sexualidade.

Quando sobrevivi à depressão, ao bullying e ao preconceito, comecei a me perguntar se minha vida não teria algum propósito. Talvez houvesse um caminho reservado para mim, embora eu ainda não conseguisse enxergá-lo.

Quando conheci você, pensei que aquela amizade fosse uma segunda oportunidade de aproveitar as possibilidades que o universo havia decidido me oferecer. Se você tivesse me dado as costas naquele momento, como tantas outras pessoas fizeram em diferentes ocasiões da minha vida, talvez eu jamais tivesse conseguido sair da inércia. Talvez passasse o resto dos meus dias assombrado pelo medo de viver e de enfrentar os problemas que a vida me apresentava.

Jamais me esquecerei das inúmeras vezes em que saímos juntos para nos divertir. Quantas gargalhadas compartilhamos! Quantos brindes fizemos à vida e à nossa amizade! Foram cervejas, viagens, literatura, cinema, compras, passeios e tantas outras experiências.

A vida é caótica, e somos nós que lhe atribuímos sentido. Naqueles dias e noites em que desfrutávamos da companhia um do outro, sabíamos muito bem qual era esse sentido. Sabíamos, melhor ainda, que éramos felizes.

Trago à memória a primeira vez que você veio me visitar em casa. Naquela época, eu já era um leitor, mas ainda estava preso aos best-sellers. Foi ali, dentro do meu escritório, que começou uma conversa capaz de mudar para sempre a trajetória de um jovem escritor.

Lembro-me de você perguntar:

— Meu filho, cadê seus livros?

Com toda a alegria e a imponência de quem acreditava ter uma biblioteca respeitável, comecei a mostrá-los. Nenhum deles, entretanto, ultrapassava os limites da subliteratura e da autoajuda barata.

— Você não sabe o que é literatura! Vamos à Feira do Livro em Belém!

E lá fomos nós. Pela primeira vez, eu pisava em uma feira literária. Pela primeira vez, alguém acreditava verdadeiramente em mim e transformava essa confiança em atitudes concretas.

Foram dias mágicos.

Desde então, algo em mim começou a se organizar em torno de uma paixão sem limites: a paixão pelos livros e pela literatura.

Nunca ninguém me olhou com tanta generosidade e carinho como você. Lembro-me dos versos de Vinicius de Moraes: eu poderia suportar a perda de muitos amores, mas enlouqueceria se perdesse todos os meus amigos. Seria insuportável enfrentar a realidade da vida sem algum tipo de escapismo.

Sei que, nesta vida, as perdas são inevitáveis. Convivi com as emoções, com o medo, com o temor e com o assombro de diferentes episódios. Não brindamos apenas à vida e às alegrias; brindamos também aos nossos mortos e às nossas tristezas.

Fiquei desolado quando perdi a Luana e, pouco depois, o Helson. Você também perdeu a Margot. Juntos, choramos e lamentamos nossas perdas.

Nós, seres humanos, temos vocação para o amor e, sobretudo, para a vida.

Não pense que vou perder você também. Não posso, não agora. Ainda temos muito a fazer, muitos lugares a conhecer e muitas histórias a compartilhar.

Penso, às vezes, em como sou leviano ao escrever estas palavras justamente em um momento tão difícil da sua vida. Talvez não seja o momento mais adequado para uma carta como esta. Mas é o que sinto agora. Afinal, a literatura é isso: não é superficialidade, é uma perfuração profunda na vertical. É uma tentativa de alcançar as camadas mais íntimas da existência. A literatura fala das coisas profundas da vida. É folhetim, é confissão, é a própria vida transformada em palavras.

Quando você me ameaçou deixar, ainda durante sua cirurgia, escrevi-lhe uma carta. Entretanto, não tive coragem de enviá-la. Talvez por medo, talvez por covardia. Todas aquelas palavras foram incorporadas à carta anterior, mas somente agora encontrei coragem para reescrevê-las e acrescentar outras tantas.

Não me preocupei em corrigir o estilo ou aperfeiçoar a coerência gramatical. Aqui estão meus sentimentos, fragmentados em palavras, exatamente como se apresentam dentro de mim.

Confesso que estes últimos meses sem você por perto têm sido muito difíceis e tediosos. Sinto sua falta. Sinto falta das nossas conversas, da sua companhia e de tudo aquilo que construímos juntos.

Em uma dessas noites, saí com alguns amigos. Queria me distrair, esquecer um pouco os problemas e voltar para casa com o espírito mais leve. Entretanto, depois de chegar em casa, já sem o efeito do álcool e com a cabeça mais racional, afundei novamente em perguntas sem respostas. Diante da sobriedade, deparei-me com a imensidão das minhas próprias ilusões.

Eu estava sozinho, com as cortinas fechadas, a porta trancada e um silêncio quase fúnebre ao meu redor.

Naquela noite, entre a ausência dos amores, a saudade dos amigos vivos e a lembrança daqueles que já partiram, senti a solidão devorar-me como um lobo faminto que ataca vorazmente sua frágil presa.

Mas, deixando esse melodrama de lado, quero agradecer a você por tudo o que já fez por mim. Pelas pequenas e grandes alegrias. Ao seu lado, aprendi a ser uma pessoa melhor. Aprendi a evoluir como ser humano, a ler melhor, a me expressar melhor e a enxergar o mundo de outro ângulo, de maneira mais ampla.

Aprendi também a aceitar minha própria natureza. Aprendi o verdadeiro significado da felicidade, aquela que não precisa ser anunciada, fotografada ou exposta. Uma felicidade discreta, sem fotos, sem filtros, sem selfies e sem a necessidade de aprovação alheia.

Ah, essa felicidade! Espero que ela resista a todas as ciladas do tempo.

Você me apresentou um lado da vida que eu desconhecia. Colocou em minhas mãos uma chave capaz de abrir as portas do desconhecido. Hoje, sinto-me livre das correntes de uma consciência imposta por outras pessoas. Hoje, estou vivendo e dando provas da minha existência.

Quisera eu que todos pudessem viver livres de suas próprias amarras e dos limites que lhes são impostos.

Você não teve filhos, mas inspirou um garoto do interior do estado, que, um dia, levará adiante essa inspiração pelo mundo afora. Não se trata de um pensamento de grandeza, mas de alguém que sabe aonde quer chegar.

Lewis Carroll escreveu que, se não sabemos aonde queremos ir, qualquer caminho serve. Não é o meu caso. Sei muito bem aonde quero chegar. Posso até não alcançar meu destino, mas, de alguma maneira, chegarei a algum lugar.

Sou completamente devoto a este ofício: escrever. Você sabe muito bem disso!

Obrigado por ter me apontado, incansavelmente, o caminho que devo trilhar. Obrigado pelas vezes em que me acompanhou em meus projetos, nas entrevistas e até mesmo na minha posse na Academia de Letras.

Obrigado também pelos presentes e por todas as demonstrações de carinho e generosidade.

Nunca poderei retribuir tudo o que você fez por mim à altura. Mas farei o possível para que nossa amizade continue cada vez mais sólida, sincera e verdadeira.

Não sei onde você está agora, nem como está enfrentando tudo isso. Sei apenas que espero que volte logo, como aconteceu das outras vezes. Tenho me acostumado à sua ausência, embora nunca tenha aprendido a lidar inteiramente com ela.

Por isso, faço-lhe um pedido discreto: não fraqueje.

Espero por você outra vez. Espero que possamos repetir tudo de novo, que ainda tenhamos muitas viagens, conversas, brindes, gargalhadas e histórias para contar.

Mas, se isso não acontecer, saiba que os últimos anos foram os melhores da minha vida.

Eu amo quem sou quando estou com você, Neiva. Você é minha amiga mais querida, a expressão mais profunda de fraternidade que já experimentei. Você representa uma das melhores partes de mim.

Amo-te muito. Você é incrível!