Desde cedo aprendi quão difícil é falar de religião, porque ela sempre se apresenta como um problema. O assunto Deus e religião é muito incômodo e delicado, embora Deus e religião sejam coisas distintas.
Quando menino, lembro-me de minha mãe me levando à igreja. Em casa, ensinava-me acerca de Cristo, o Supremo Autor do universo. Nada disso adiantou; nada me fez permanecer em sua religião. À medida que eu crescia, mais distante do mundo cristão ficava. Talvez fosse impossível não me decepcionar com a religião. Apesar de manter minha fé em Deus, o inevitável aconteceu: abandonei a fé.
Por muitos anos considerei-me agnóstico. Viver nesse estado foi mais confortável do que crer ou deixar de crer em alguma coisa. Em outras palavras: mantive-me em cima do muro. Essa, sem dúvida, é uma forma bastante humanística de ver o mundo.
Muitos questionamentos, inúmeras perguntas perturbadoras e a inquietante falta de respostas.
Parte da minha inspiração vem da perplexidade de existir, do assombro que é perceber-se existindo. A sensação é de esquisitice e estranheza. Não bastasse isso, ainda temos de dar uma resposta para esta vida.
As perguntas fundamentais que dão origem às filosofias e às religiões são as mesmas que também dão origem à arte: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Toda arte é uma tentativa de responder a essas perguntas. As religiões e a filosofia procuram fazê-lo de maneira mais sistemática. Pensar nos leva à reflexão, e refletir, algumas vezes, nos conduz ao sofrimento.
Não existe pessoa que passe pela vida sem sofrer. Considero o sofrimento importantíssimo; ele é condição para uma consciência maior. Todos nós temos motivos suficientes para sofrer. Sofremos pela nossa condição humana, pela finitude da vida, pelas nossas precariedades; sofremos por envelhecer, por adoecer, pelas chegadas e partidas.
A vida humana é uma fonte de sofrimento, uma Via Crúcis, um vale de lágrimas. Muitas pessoas passam pela vida fugindo da dor; entretanto, fugir dela é perda de tempo. Mais cedo ou mais tarde, ela estará presente em nossa existência. Esse absurdo que é a dor, bem como sua inevitabilidade, acompanha a humanidade desde sempre. O homem procura incessantemente respostas para suas questões existenciais; porém, muitas delas continuarão misteriosas e incompreensíveis ao intelecto humano.
A vida terrena, sem a finitude, seria insuportável. O lado bom é que um dia tudo termina para nós.
Todo crente passa pela dúvida. Pelo deserto da fé. Os grandes místicos atravessaram desertos inimagináveis, crises religiosas e crises de fé. Grandes homens e personagens bíblicos também tiveram seus momentos de incredulidade. Até mesmo os cristãos mais dedicados já experimentaram essa secura espiritual.
Santa Teresinha dizia: “Estou padecendo dúvidas de fé; todavia, continuo fazendo as obras da fé.” Isso deixa claro que, mesmo em meio a todos os percalços da dúvida, havia nela uma fé que a conduzia adiante.
Há muitos anos, numa madrugada, sentado à janela do meu quarto, observando o céu pontilhado de estrelas cintilantes, imaginei um universo desprovido de um Deus real. Um Deus que estivesse apenas na imaginação dos homens.
Por um instante — não mais que isso: um único instante — experimentei a sensação mais solitária que minha alma já conheceu. Não era apenas solidão; era a solidão mais profunda que já senti em toda a minha vida. Mais do que um exílio: um assombro.
Por muitos anos vivi assim, com esse sentimento de orfandade de um Ser maior. A partir do nosso nascimento inicia-se uma construção particular em cada um de nós. Nossa moral, personalidade, comportamentos, valores e princípios vão sendo moldados conforme o meio em que estamos inseridos. O ser humano nasce incompleto; há lacunas que vão sendo preenchidas ao longo do tempo. A lacuna de Deus permanecia vazia em minha vida. Nada conseguia preenchê-la.
Comparo essas construções às misteriosas catedrais góticas da Idade Média, erguidas entre os séculos XII e XIV, que desafiam a modernidade por sua suntuosa beleza arquitetônica. Nessas construções havia os arcos ogivais, responsáveis por distribuir o peso da abóbada central sobre diversos pontos de sustentação. Para que toda a estrutura permanecesse de pé, porém, era necessária uma pedra central, a chamada pedra angular.
Fiz meu caminho, minhas escolhas, tomei minhas decisões, construí minha própria história; mas faltava-me essa pedra, que hoje chamo de Deus.
Nesse processo de retorno, de profunda reflexão, voltei ao cristianismo com plena consciência dos meus eventuais fracassos, das minhas incertezas, mas, no íntimo, acreditando no milagre de existir, que ultrapassa a capacidade da lógica.
Regressei, contudo, sem fanatismo religioso. Acredito em Cristo, no Inominável, no Sublime. Sofro com os mesmos desatinos da minha condição humana; entretanto, agora me é possível sofrer em paz.
Já dizia o apóstolo Paulo: “A paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente.” Ninguém explica esse mistério. Chamo-o de mistério justamente porque o transcendente escapa à explicação.
Ainda que a filosofia, a ciência, a descrença ou qualquer outro sistema de pensamento me provem o contrário acerca da existência de Deus, prefiro descansar nesse oásis e esperar o regresso para casa.
Deus é um absurdo. Hoje O percebo nas águas tranquilas que escorrem pelos pequenos riachos, na brisa que sopra ao entardecer, no poente, na natureza e, às vezes, até no mar bravio.
Tudo é breve. Tudo é passageiro. Nosso tempo é curto, e a vida termina logo ali.
Como escreveu Clarice Lispector, já próxima da morte, com a caligrafia trêmula: “Eu sei que Deus existe.” Em outro momento escreveu: “Quando acabardes este livro, chorai por mim um aleluia (…). No entanto, eu já estou no futuro.”
E, por fim, deixou registrado aquele que talvez tenha sido seu maior desejo: “Eu quero simplesmente isto: o impossível. Ver Deus!”
Esse também é o meu.
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