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	<title>Arquivo de 2022 - Kerley Carvalhedo</title>
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	<description>Site oficial do escritor Kerley Carvalhedo</description>
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	<title>Arquivo de 2022 - Kerley Carvalhedo</title>
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		<title>A fuga de um chamado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Nov 2022 00:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2022]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nasci em uma família tradicional cristã. Eu devia ter uns 15 anos quando minha mãe resolveu me mandar para uma espécie de seminário evangélico, uma instituição educacional dedicada à formação na preparação cultural, teológica e espiritual de futuros</p>
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<p>Nasci em uma família tradicional cristã. Eu devia ter uns 15 anos quando minha mãe resolveu me mandar para uma espécie de seminário evangélico, uma instituição educacional dedicada à formação na preparação cultural, teológica e espiritual de futuros</p>



<p>líderes religiosos de suas respectivas denominações. Confesso que para seguir vivendo de acordo com uma regra religiosa é preciso o mínimo de fé ou vocação. Fé eu tenho até hoje, só me faltou a vocação e a devoção. Para agrado da minha mãe, eu fui.</p>



<p>O local não chegava a ser um mosteiro, porém foi construído fora do perímetro urbano. Por um tempo vivi como um cenobita; no entanto, eu me sentia mais um eremita. Morei lá durante meses – quase como um prisioneiro nas masmorras.</p>



<p>Em torno dos muros existiam comunidades agrícolas, cujo os camponeses produziam parte dos alimentos para os estudantes da instituição. O aposento dos homens ficava de um lado, já as acomodações femininas tinham melhores instalações, melhor iluminação e as paredes cor de marfim. Os pavilhões eram separados por um grande salão de estudos que ficava no meio da sede.</p>



<p>Os estudantes não tinham comunicação com o mundo externo. Os celulares já existiam, mas por conduta e norma da instituição eram todos confiscados. As ligações eram permitidas somente para familiares, aos domingos. Com o tempo limite de dez minutos.</p>



<p>No salão de orações, moços e moças compartilhavam o mesmo ambiente sagrado. Em um desses concílios conheci uma linda jovem de aparência nada religiosa. Trazia um nome tatuado no braço esquerdo. Trazia outro nome tatuado no braço direito, de mulher. E enquanto nos preparávamos para mais uma sessão de estudos, perguntei de quem era o nome do braço direito. Da minha falecida mãe, respondeu. E mostrando o outro acrescentou, esse é da minha filha que faleceu com minha mãe num acidente. O do filhinho, apontou, estava próximo ao pulso. Falecido prematuramente.</p>



<p>Tão jovem e tantas perdas? fiquei surpreso. Viúva também, respondeu completando sua lista de perdas. – Por isso estou aqui, querendo entender o que fiz com Deus para tantas desgraças em uma vida só.</p>



<p>Por duas vezes na semana nos víamos, e assim fiquei sabendo de toda sua história. Nada eu podia fazer para alegrar o seu enlutado coração. Aquela jovem moça se refugiara ali, se protegendo dos seus sofrimentos, das suas angústias. Ela realmente quis se dedicar às coisas de Deus, diferente de mim.</p>



<p>Havia na instituição um jornaleco interno onde eu era cronista diário. As pautas eram essas: o que ocorrera de importância no decorrer do dia, os estudos aplicados e qualquer coisa de relevância e relacionada aos estudos humanísticos. Aprendi muita coisa, não posso negar. Os estudos eram bons, só não aguentava mais aquela rotina de ter que levantar cedo, fazer orações, ler, escrever, estudar, cumprir religiosamente os horários.</p>



<p>Sou um ser humano cheio de limitações, tenho as minhas falhas como qualquer outro ser humano normal. Não existem homens perfeitos. Se um dia existiu, eu não era mais o mesmo de quando ele fora originalmente perfeito.</p>



<p>Preciso deixar este lugar, pensei. Contei o plano para dois amigos de quarto. Concordaram. Juntos planejamos a fuga. No dia seguinte executaríamos a estratégia; e no outro, mal anoiteceu eu já tinha guardado todos meus pertences na mala. Era quase meia noite quando saí da cama sem levantar suspeitas. Arrastei a mala pelos corredores vazios e carreguei-a até à margem do lago, onde meus dois amigos estavam me esperando para me atravessar de barco.</p>



<p>Fugas deste tipo costumam ter um cunho heroico, tanto mais heroico quanto mais arriscadas. Na hora de pôr o plano em prática, o sujeito se metamorfoseia no nosso imaginário, passa a ser apenas o ser humano lutando por sua liberdade, fugir desse tipo de prisão significa escapar da realidade que nada tem a ver com você. Mas, e se desse errado? Por proteção divina não deu.</p>



<p>Grande foi o meu entusiasmo, na travessia do lago, pela fuga de um adolescente que acabara de rejeitar o seu “sublime chamado”. Chegando em solo firme, me despedi daqueles amigos e segui meu destino por uma trilha dentro da mata escuríssima. O lugar era todo murado; contudo, seus muros altos não me impediram de fugir.</p>



<p>Agora os tempos são outros. Soube recentemente que não é mais possível fugir por qualquer parte. Existem câmeras de segurança no local e guardas noturnos que vigiam a grande fortaleza com seus cães farejadores.</p>



<p>No final da trilha, dentro da pequena mata tinha uma passagem para o outro lado. Um buraco no muro. A saída dava numa estrada abandonada, andei alguns quilômetros a pé até chegar à cidade. Horas depois eu estava acomodado na poltrona, ao lado da janela do avião em rumo ao meu precioso e doce lar.</p>



<p>Assustada com minha chegada sem recado prévio, minha mãe indagou-me o motivo de estar em casa antes mesmo das férias de dezembro. Menti dizendo-lhe que o mestre instrutor do nosso grupo sofrera um infarto e fomos dispensados por tempo indeterminado. Ela acreditou até receber a ligação do coordenador geral da instituição contando-lhe toda a verdade sobre a fuga que ele mesmo presenciara do alto da torre que ficava entre os aposentos. Os dois amigos receberam severas advertências por minha culpa. Para minha mãe, ele pediu que não me mandasse de volta. Sem comentar sobre o assunto, nunca mais minha mãe teve a ideia de me mandar a qualquer outro lugar que não fosse de minha concordância.</p>



<p class="has-text-align-right has-small-font-size"><em><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#285270" class="has-inline-color">Imagem/Pexels</mark></em></p>
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		<title>A vida é isso?</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2022/11/15/a-vida-e-isso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Nov 2022 21:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2022]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ele cresceu ouvindo dizer que “tempo é dinheiro”. Que para vencer era preciso ceder às exigências da vida contemporânea: é preciso ser magro, atlético, competitivo, rico, competente, correr atrás do sucesso, da fama e se destacar. E</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ele cresceu ouvindo dizer que “tempo é dinheiro”. Que para vencer era preciso ceder às exigências da vida contemporânea: é preciso ser magro, atlético, competitivo, rico, competente, correr atrás do sucesso, da fama e se destacar. Ele acreditara nisso. Começou sua busca pela tão sonhada vida de sucesso cedo, logo nos primeiros anos da adolescência. Tinha que trabalhar, terminar os estudos, casar, ter filhos, construir seu legado e deixar uma herança. Antes mesmo de terminar a faculdade já não fechava cinco horas dormidas por dia.</p>



<p>Terminou a faculdade, casou-se teve filhos e conseguiu juntar grana e montar seu próprio negócio; próximo dos quarenta estava a um passo de realizar seu grande sonho: ter mais tempo para ficar junto à família. Conseguiu boa parte do que tanto queria, menos o almejado tempo.</p>



<p>Ele, que ao cair da noite estava em casa, agora só chegava quando todos já estavam dormindo. As demandas da sua empresa eram cada vez maiores, passava horas em seu escritório resolvendo assuntos financeiros, queria ver os lucros aumentarem (os números da sua conta bancária também).</p>



<p>Sua esposa não reclamava muito, tinha uma boa vida, contudo sentia-se uma mulher solitária. Quando questionado por ela, dizia ele que todo aquele sacrifício era para ter uma vida mais digna e desfrutar cedo do trabalho com ela e os filhos.</p>



<p>A ausência no meio familiar ficou cada vez mais frequente, justificava que trabalhara para lhes oferecer uma vida boa e digna. No começo dos negócios, sentava-se à mesa duas ou três vezes por semana para os jantares, mas com a nova rotina de empresário bem-sucedido mal visitava a luxuosa sala do jantar construída para um grande número de pessoas.</p>



<p>Ampliou sua fortuna, construiu um império, no entanto perdera os primeiros passos do filho, a primeira comunhão da filha, o casamento da primeira neta, também perdera o afeto dos pouquíssimos amigos, que falivelmente buscavam tê-lo por perto.</p>



<p>Embora já tivesse dinheiro suficiente para viver bem o resto da vida, nada o desacelerava. Durante uma crise financeira no país sua empresa foi razoavelmente afetada – isso agravou seriamente seu quadro de insônia. Passou a dormir bem menos que o habitual. Sua rotina cansativa se repetia: acordava cedo, dormia tarde, alimenta-se mal, tinha péssimos hábitos saudáveis.</p>



<p>Exaurido pela a agitação da cidade comprara uma chácara, longe do centro urbano para ir ficar recluso quando quisesse descansar. Lá construiu uma pequena capela em homenagem aos seus falecidos pais, para onde seus restos mortais foram levados. A capela passou e ser o seu lugar de refúgio. Sua mulher sabia onde encontrá-lo quando seu telefone não desse sinal nenhum.</p>



<p>O velho homem dizia que trabalhava incansavelmente para poder ter mais tempo e dormir um pouco mais. Ninguém sabe ao certo se ele era um homem feliz ou era apenas um infeliz endinheirado. Seu tão sonhado desejo não demoraria a se realizar. Em casa, depois de um intenso e exaustivo dia de trabalho, o homem deitou-se, e já pensando no dia seguinte, dormiu e nunca mais acordou – seu sonho de dormir um pouco mais se realizou: seu corpo foi sepultado na capelinha onde ele e seus pais dormem profundamente.</p>



<p class="has-text-align-right has-small-font-size"><em><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#244d64" class="has-inline-color">Imagem/Pexesl</mark></em></p>
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		<title>Amor nas Escadas</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2022/10/09/amor-nas-escadas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Website Builder]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Oct 2022 18:53:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2022]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Recordações partilhadas são uma necessidade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Recordações partilhadas são uma necessidade.</p>



<p>De repente alguma coisa surge para ressuscitar nossas lembranças mais ocultas. Há janelas que se abrem repentinas em nossa vida, trazendo uma luz que acende a nossa memória. Hoje foi assim; tirei o dia para recordar, mas sem saudosismo, sem tristeza, sem angústia, com outro sentimento: melancolia.</p>



<p>Encontrei no YouTube o Canal do meu amigo e professor Gesiel Nunes, um vídeo no qual ele faz um tour pelo centro comercial da Vila Permanente em Tucuruí, Pará. Há um momento da filmagem que aparece uma das escadas do centro comercial, escadas essas, que serão uma das peças fundamentais desse enredo. Nesse instante, subitamente fui tomado por um sentimento de profunda nostalgia, que me fez reviver os mais profundos sentimentos de afeto, de entrega, de companheirismo e por que não dizer de paixão?!</p>



<p>O ano era 2006, época onde não havia tantos recursos tecnológicos como na atualidade, mas havia uma interação recíproca e verdadeira. Eu estudava no tradicional colégio Rui Barbosa, localizado na Vila Permanente, entretanto, morava na cidade ao lado: Breu Branco. Todos os dias eu fazia esse trajeto entre essas duas cidades, carregando na minha bagagem estudantil os meus sonhos e minhas convicções.</p>



<p>Na escola, convivendo com diversos estudantes, acabamos conhecendo rostos e características físicas que fazem parte da nossa rotina no ambiente escolar. Nessa multidão de estudantes, eu sempre via alguém que parecia ter uma luz diferente, porém, não sabia o nome.</p>



<p>Um dia, após a aula, resolvi ficar andando no centro comercial, olhando as lojas, vitrines, admirando o lugar tranquilo, arborizado, limpo… ao descer uma de suas escadas, ainda do alto no corrimão, vi alguém, que para minha surpresa era o alguém que parecia ter uma luz diferente, que na verdade chamava-se Zure.</p>



<p>A escada, toda feita no concreto, de cor acinzentada, com mureta, com seus degraus resistentes e, certamente servindo de passagem para muitas histórias, continua até hoje exercendo sua função.</p>



<p>Era a segunda vez que via Zure sobre a mureta da escada, sentava-se sempre ali. Claro, eu não sabia o motivo pelo qual Zure sentava ali. Observei que, ao seu lado, junto à lata de refrigerante agora vazia, ouvia algo no fone de ouvido, porém ouvia apenas de um lado. Percebi que não estava “viajando” em redes sociais, nem trocando mensagens, mas obedecendo a alguma necessidade, talvez emocional, imposta por aquela solidão consentida.</p>



<p>Não se interessou pela minha chegada, é provável que nem tenha percebido. O foco estava na música, mas, por um instante, virou-se em minha direção e vi em seu rosto a lágrima salta-lhe os olhos. Isso me chamou a atenção. Pois, não é algo tão comum encontrar alguém chorando em uma escada.</p>



<p>Sou pessoa bem-educada, porém sempre que vejo alguém chorando ao meu lado, peco de indiscrição.<br>Perguntei-lhe então se precisava de ajuda, entretanto, não respondeu, como também não hesitou minha presença. Outra vez, insistentemente pergunte-lhe se precisava de algo, por vezes os lábios, não silabando, parecia trazer à boca as palavras, que não vinha. Apenas chorava copiosamente. Esta não era a primeira vez que via Zure na mureta. Daquele jeito ainda não tinha visto ninguém, não naquele lugar.</p>



<p>Discretamente fui puxando assunto com Zure, no intuito de amenizar qualquer que fosse o problema que tivesse enfrentando naquele momento. Mesmo sem muita intimidade, Zure permitiu que nossa conversa se estendesse aos mais variados temas, como: família, problemas emocionais, sentimentos, entre outros.</p>



<p>Depois de uma longa conversa fui embora, pensando o que se passara na cabeça daquele ser incapaz de administrar suas emoções, talvez não tivesse maturidade suficiente para isso.<br>Dia seguinte, para minha surpresa, Zure estava lá outra vez na escada, só que agora com um leve sorriso de canto de boca. Assim foram todos os outros dias seguintes, nossos encontros na escada, aliás, ficávamos sentados em cima da pequena mureta, que serve de apoio como se fosse um corrimão.</p>



<p>Ao ir embora, as vitrines me pareceram mais coloridas nos dias seguintes, embora eu tenha passado tantas vezes e não tinham nada de verdadeiramente novo ou surpreendente capaz de atrair meu olhar, mas dessa vez, tudo me parecia mais bonito. E naquele fim de tarde cinzento, num calor de verão, os ventos mornos me pareciam brisas, o canto dos pássaros soava como acalento para meu coração.</p>



<p>Eu não tinha certeza de nada, mas tinha impressão que ali começaria um grande amor, só não sabia que este amor duraria muitos anos. O tempo foi passando e cada vez mais, nos aproximávamos, meu mundo sombrio e solitário, parecia que deslizava para o caminho da felicidade, o que de fato foi muito feliz. Tudo era lindo, parecia ser mágico, era tudo muito único e, sobretudo, especial.</p>



<p>Houve um dia que atravessei ansiosamente os blocos do centro comercial rumo às escadas. Mas cheguei cedo demais e não vi ninguém, confesso que fiquei triste, desapontado, confuso. Vaguei por uma loja de flores, onde tudo me pareceu sem lógica, andei um tanto a esmo, até chegar à conclusão de que ali não seria mais o lugar ideal para nos encontrarmos.</p>



<p>Mas, posteriormente o sol voltou a brilhar com mais intensidade e calor e, encontramo-nos incontáveis vezes, vivemos demasiadamente tudo que tínhamos de viver, fizemos longas viagens pelo Brasil, sonhamos juntos, conquistamos juntos. Zure e eu nos amamos de forma intensa e profunda, o amor foi tão recíproco e único, que nossa história virou contos nas páginas de livros fora do país, foi de fato tudo muito mágico e puro, onde não havia espaço para sentimentos ruins. Mas, como a vida é feita de ciclos, chegou o dia que eu precisava seguir um caminho e Zure outro. Nove anos depois deste encontro, decidimos colocarmos um ponto final em tudo, menos na amizade e partimos de corações partidos. Zure partiu para o Sudeste, eu para o Centro-Oeste do país.</p>



<p>Alguns anos depois eu passava sozinho pelas escadarias do nosso primeiro encontro, e podia lembrar de detalhes, como se tudo acabara de acontecer. Tudo passou, mas as lembranças ficaram.<br>Nosso passado não passa, é um pretérito que mantemos vivo. Apesar de tudo, aquelas escadas preservaram uma história, ou melhor, imortalizaram uma memória de um grande amor.</p>
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		<title>Viagem sem volta</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2022/08/31/viagem-sem-volta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Aug 2022 19:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2022]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi professor de uma renomada universidade, mas aposentou-se cedo. Nunca casou e nem teve filhos. Morava sozinho. Sua única companhia era a de Schubert, seu cão da raça Pug, que vivia dormindo na fenda do velho sofá rasgado. </p>
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<p>Foi professor de uma renomada universidade, mas aposentou-se cedo. Nunca casou e nem teve filhos. Morava sozinho. Sua única companhia era a de Schubert, seu cão da raça Pug, que vivia dormindo na fenda do velho sofá rasgado. A empregada chegava todas as manhãs, preparava-lhe o café, realizava suas tarefas domésticas na imensa mansão, depois ia embora.</p>



<p>O homem passava a maior parte do tempo na sua biblioteca, entre as estantes abarrotadas de livros. Era lacônico e antissocial. Pouco se comunicava com a empregada. As conversas eram como se fossem monólogos “Com licença, Senhor. Trouxe-lhe seu chá” –, ele correspondia-lhe com breves acenos.</p>



<p>Ele tinha compulsão por livros. À medida que os lia, ia depositando um sobre o outro formando enormes amontoados pelo chão, junto às estantes. O homem lera um livro sobre uma tal Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Vernes. Descobrira misteriosamente uma passagem secreta nas páginas do livro para um mundo onde tudo era possível.</p>



<p>Passando-se uns dias, o homem comunicou à empregada que em breve faria uma viagem, não sabia ao certo quando partiria e nem quando iria voltar – recomendou que ela guardasse os livros que fossem chegando pelos correios. Também lhe pediu que limpasse as prateleiras que há muito estavam empoeiradas.</p>



<p>Certa manhã, a empregada conferiu a biblioteca – percebeu que o homem não estava lá, verificou o quarto – não havia sequer um alfinete fora do lugar. Pressupôs que o homem havia ido para sua anunciada viagem. Ela só estranhou o fato do homem não ter levado nada, tudo continuava aparentemente do mesmo jeito dentro do quarto, a mala, os sapatos, as roupas, tudo igual como ela havia organizado.</p>



<p>O homem sumiu para dentro do livro –, ele poderia entrar e sair quando quisesse, só tinha um detalhe – o livro tinha de estar ao chão e aberto.</p>



<p>A empregada aproveitou que o patrão não estava, entrou na biblioteca, limpou e reorganizou todos os livros, na esperança que ele ficasse feliz por sua nobre atitude ao voltar.</p>



<p>Ela não sabia que o livro pelo qual ele acessara o portal, era aquele que estava no chão da biblioteca. Ela também o limpou, fechou e o colocou de volta na prateleira, entre outros livros amarelados pelo tempo. O homem, ao regressar de sua viagem, tentara sair do seu mundo encantado, foi quando percebeu que não conseguia – alguém fechara o livro. O pobre homem procurou outras saídas, porém, nunca mais encontrou outro caminho de volta para a realidade.</p>



<p class="has-text-align-right has-small-font-size"><em><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#124463" class="has-inline-color">Imagem: internet </mark></em></p>
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		<title>Um dia sem amigos</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2022/08/16/um-dia-sem-amigos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Aug 2022 20:09:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2022]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quase todo filho tem ou já teve algum descontentamento com os pais (coisas da adolescência). Um dia, ele teve uma boba discussão com seus, pensou em sair de casa e ir à casa da tia, que ficava numa cidade vizinha. Era noite, mas o clima tenso não o permitia ficar à vontade em seu lar.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quase todo filho tem ou já teve algum descontentamento com os pais (coisas da adolescência). Um dia, ele teve uma boba discussão com seus, pensou em sair de casa e ir à casa da tia, que ficava numa cidade vizinha. Era noite, mas o clima tenso não o permitia ficar à vontade em seu lar. Pegou a mochila e colocou alguns pertences, o bastante para passar uma semana: livros, CDs, roupas, um tênis, escova de dentes, desodorante e sabonete. Contou algumas notas em dinheiro e umas moedas que estavam na gaveta da escrivaninha, um cigarro e um isqueiro. Saiu pela porta dos fundos em absoluto silêncio. Por uma estrada oposta ao centro da cidade, ele caminhava com a mochila nas costas de cabeça baixa, fones de ouvido e mãos nos bolsos.</p>



<p>A noite estava muito fria. Não passava ninguém, muito menos transporte. Insistiu em ficar, na esperança de passar algum conhecido que fosse para a cidade vizinha. Passava um pouco da meia-noite. Não queria que seus pais ou alguém naquele momento infortúnio soubessem onde ele estava. Desativou o sinal do telefone. Só queria ir embora para qualquer lugar longe daquela casa.</p>



<p>De repente, um vento frio e forte começou a soprar as folhas secas pelas ruas vazias. Uma forte chuva começou a cair, correu para debaixo de um daqueles pontos de ônibus para se proteger dela. Maldita chuva − maldito momento. Sozinho − literalmente sozinho. Pior de tudo: sem ter para onde ir. Enquanto a chuva caía, ele tentava se agasalhar em um cantinho da marquise, onde o respingo não o molhava. A chuva caía mais leve no início da madrugada. A bateria do telefone já estava acabando, pois ouviu todas as músicas do seu acervo.</p>



<p>Tudo ele que queria era ter amigos para que pudesse ligar àquela hora da noite. Ficar ali não seria boa ideia. Começou a vasculhar toda a lista telefônica, procurando alguém onde pudesse passar o resto da noite. Infelizmente não encontrou ninguém. Só então percebeu que nunca fez amizades verdadeiras, eram todas supérfluas.</p>



<p>Era assim que ele se sentia − sem importância. Sentia-se rejeitado, um jovem solitário, cheio de conflitos externos e internos. Mais que isso: sentia-se incompreendido e atormentado. De jaqueta e capuz, continuou debaixo da marquise, esperando a chuva parar. Retirou o cigarro do bolso e o acendeu, fumou como se aquele fosse o último do mundo. Depois chorou.</p>



<p>Voltou para casa com um problema a mais: “a ausência de amigos”. Na volta, a chuva caía mais suave e triste. Chegando em casa, retirou a cópias da chaves, entrou discretamente pela porta dos fundos em silêncio fúnebre, sem deixar nenhuma suspeita. Em seu quarto, deitado ouvia Bach. No dia seguinte, as horas pareciam uma eternidade. Não quis saber de ninguém naquele dia. Sentiu-se um verdadeiro lobo fora da matilha.</p>



<p class="has-text-align-right has-small-font-size"><em><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#306d91" class="has-inline-color">Imagem/Pexels</mark></em></p>
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		<title>De: Kerley Carvalhedo / Para: Helson Bezerra</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2022/01/01/de-kerley-carvalhedo-para-helson-bezerra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Jan 2022 18:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2022]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Querido amigo, escrevo-lhe com a sensação de que devo contar-lhe tudo, sem modéstias, sem ocultar nada.</p>
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<p>Querido amigo, escrevo-lhe com a sensação de que devo contar-lhe tudo, sem modéstias, sem ocultar nada.</p>



<p>Antes de tudo, quero lhe dizer que sua fama de bom profissional foi tão grande que todos por aqui já sabem quem você é. Não falo com excesso ao afirmar que todas as gentes de perto e povos de longe ouviram falar bem de você. E isso porque sua profissão e sua essência humana fazem de você um grande homem.</p>



<p>Sei que devo contar-lhe, atenuar sua curiosidade, e dizer-lhe que seus admiradores, querendo dar-nos a utopia de que você ainda se encontra entre nós, inauguraram uma Unidade Básica de Saúde em sua homenagem, na Travessa W Três, na Cohab, não tão distante de sua casa, na cidade de Tucuruí.</p>



<p>Foi certamente, uma homenagem linda e muito merecida amigo, diante de tudo aquilo que você deixou como legado. Agora, você está eternizado não apenas no coração dos que o conheceram, mas na vida de muitos que procuram esse local em busca de solução para seus problemas de saúde.</p>



<p>Dizem que sei muito e, modéstia à parte, é claro que sei, e somente sei muito porque nunca conto tudo que sei.</p>



<p>Amigo, desde sua partida, muita coisa mudou, irei atualizá-lo de alguns fatos desses últimos anos.</p>



<p>Sabe, amigo, coisas horríveis têm acontecido por aqui; em dezembro de 2019, o mundo foi alertado sobre vários casos de pneumonia na cidade de Wuhan, província de Hubei, na República Popular da China. Um tipo de vírus não identificado antes em seres humanos. Não demorou muito, e, uma semana depois, em janeiro de 2020, o novo Coronavírus estava entre nós, causando angústia, desespero, aflição, insegurança e muito medo.</p>



<p>O vírus foi batizado por nome COVID-19, porque ainda em 2019 surgiram os primeiros casos divulgados, naquele momento não tínhamos noção do que viveríamos nos próximos anos.</p>



<p>E o que parecia ser apenas uma epidemia, na verdade era uma pandemia que se alastrou e ainda se alastra invisível e silenciosamente pelo planeta a ameaçar a sobrevivência da espécie humana.</p>



<p>Amigo, você sendo da área da saúde, devo dizer-lhe que a ciência e os laboratórios do mundo inteiro estão numa corrida incessante em busca de uma solução, um antídoto que possa de fato aniquilar de vez esse maldito vírus, mas infelizmente, ainda não temos definitiva a tal solução e, lamentavelmente, o mundo continua a padecer.</p>



<p>É amigo, não tem sido fácil as coisas por aqui. O maldito vírus dizimou milhões de pessoas em todo o planeta Terra. Ficamos meses enclausurados em nossas casas. Submetidos à solidão absoluta, que, para mim foi absolutamente tranquilo; o meu cotidiano continuou preservado. Por vezes pensei que estivéssemos voltados à uma clausura dos mosteiros medievais. Ficamos privados da liberdade, do pão que nos faltou, e agora em uma quase “pós-pandemia” ainda nos falta.</p>



<p>Caro amigo, é crítica o momento atual da civilização brasileira. Confesso-lhe que nossas amadas cidades e o Brasil mudaram muito desde que você nos deixou em 2018, muitas coisas aconteceram, inclusive até eu mudei, agora moro em outra cidade, em outro estado.</p>



<p>Helson, meses depois de sua partida, lancei aquele livro de crônica que tanto falei para você, além de uma crônica exclusiva em sua homenagem, dediquei-lhe o livro em sua memória. Não poderia permitir que você fosse esquecido, por isso o imortalizei nas páginas de um livro e dos jornais.</p>



<p>A tão esperada homenagem da Câmara Municipal de Breu Branco aconteceu, nela pude homenageá-lo através do meu discurso, tal feito expressei o seu desejo de estar conosco naquela memorável cerimônia, como tantas vezes você afirmou que estaria.</p>



<p>Também me recordo o dia que marcamos para tomar café na calçada da minha casa, à noite. Por motivos de imprevistos, você apareceu, mas pouco demorou, fiquei parte da noite na companhia solitária de uma xícara de café. Pediu-me que regressasse à casa, que naquela noite você não poderia ficar mais tempo e nem voltaria logo. Não sem antes despedir-me com um abraço, um único abraço, na verdade o último abraço. Naquele instante senti tanta ternura, quis que não fosse embora, mas sabia que um dia muitos reconheceriam sua grandeza. Quantas aventuras contamos ao sabor dos muitíssimos tempos de amizade.</p>



<p>Amigo, ando tão deprimido, o que vem se tornando cada vez mais comum. De repente, quando tudo parece que chegou ao fim, vem outra surpresa; agora variantes do vírus mortal surge como erva daninha, pouco sabemos sobre essa era pandêmica. Assim como os vírus, os casos de racismos, os discursos de ódio e a intolerância também se multiplicaram no país. Os nossos teatros, os grandes músicos, e parte da nossa cultura tem suportado grandes represálias. É uma angústia terrivelmente dolorosa. O terror tem sido eminente nos últimos anos, até parte da nossa história se perdeu em um incêndio de grandes proporções que atingiu a sede do Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Os rastros deixados foram sendo apagados, viramos uma sociedade à mercê do caos.</p>



<p>Embora não seja inaugural esses atos trágicos, contudo, estamos sofrendo inibições e restrições à cultura. De algum modo, o povo tem ficado órfão da educação e da cultura canônica, o que é de fato lastimável.</p>



<p>O Brasil que sempre foi um centro produtor e reprodutor de maravilhas da cultura, agora vem padecendo rigorosamente –, estão querendo considerar a cultura brasileira como algo ofensivo. Governos pregoam que a nossa história, de algum modo, nas suas variadas expressões encarna-se ofensas aos valores brasileiros. Que nós, produtores de cultura, obscurecemos aos valores da família, aos valores do cotidiano, aos valores do sexo, aos valores de qualquer categoria social inerente ao humano. Dizem por aí que a cultura, de algum modo, nela se concentrava o maligno, estava o mal que ofendia a sociedade brasileira. Isso tornou-se um desastre por aqui.</p>



<p>Eles dizem isso, amigo, como se a cultura não fosse uma coisa quase arqueológica, de uma consciência nacional. Eu digo sempre –, só se pode entender o Brasil por meio das ações culturais. Eu e você chegamos a conversar sobre isso e sobre um tal “Salvador” da pátria, lembra? Pois é, esse tal “Salvador” chegou como quem é um soldado em defesa da causa brasileira, dos valores brasileiros, da religião brasileira, daquilo que estaria “ofendendo” o Brasil.</p>



<p>Mas, amigo, os atos foram insensatos, impensados e injustos, totalmente injustos. Para salvar este país, é preciso entender que precisamos zelar pela cultura. Não há Brasil sem os seus grandes. O Brasil foi se construindo pelos grandes intelectuais, pelos grandes compositores, pelos grandes pintores, pelo folclore brasileiro, pelas cantigas, pelo samba. Tudo isso é o Brasil, aliás, é muito mais Brasil do que esse tal “Salvador” da pátria. Nós somos um produto da cultura que vem desde sempre.</p>



<p>Talvez me exceda, perco a dimensão do que estamos vivendo neste exato momento, mas de uma coisa eu sei, por aqui está todo mundo meio louco, igual a protagonista Alice no País das Maravilhas. A luta por um país melhor e mais justo tem deixado a gente assim, numa corrida desenfreada, há escassez de tudo, inclusive civilizatória.</p>



<p>Nós da cultura, seguimos resistindo, como você o fez na sua profissão, mesmo com todos os desfalques e precariedades nelas contidas. Sigo fiel à arte, à língua, aos os sentimentos cívicos. Juro que vou lutar um pouco mais para melhorar o meu mundo e o meu país.</p>



<p>Aqui fico, querido Helson, agora em terras&nbsp;<em>longínquas</em>, mas sem renunciar este país que segue lindo, mas sofrendo os efeitos devastadores da peste, da violência, da corrupção e da fome. Até nosso próximo encontro. De Kerley.</p>



<p class="has-text-align-right has-small-font-size"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#22516e" class="has-inline-color"><em>Fotos: Pixabay</em></mark></p>
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