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	<title>Arquivo de 2025 - Kerley Carvalhedo</title>
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	<description>Site oficial do escritor Kerley Carvalhedo</description>
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	<title>Arquivo de 2025 - Kerley Carvalhedo</title>
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		<title>A carta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Dec 2025 19:19:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi há 65 anos, no início dos anos 60. Ela tinha 15 anos. Ele, 17. Ela do interior, ele da cidade. Nada extraordinário nisso. </p>
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<p></p>



<p>Foi há 65 anos, no início dos anos 60. Ela tinha 15 anos e ele, 17. Ela vinda do interior, ele da cidade grande. Nada muito extraordinário nisso. O pai dela organizava as chamadas matinês, que na verdade eram forrós de chão batido. Ele mesmo tocava pife, aquele instrumento simples feito de madeira, taboca ou o que houvesse à mão. Era o som possível, e era o suficiente.</p>



<p>Numa dessas tardes o rapaz apareceu. No interior, aparecer já é um acontecimento. A garota era bonita, apesar da vida dura de retirante, e não perdia uma roda de forró. Ele a viu de longe, aproximou-se, estendeu a mão e ela aceitou sem pensar muito. Dançaram como se já soubessem que aquela dança duraria pouco, mas ainda assim importava.</p>



<p>O pai dela percebeu logo. Pais costumam perceber quando já é tarde. Proibiu os dois de se encontrarem, mas houve ainda um último momento. Ele disse que a amava, ela disse que também amava, e antes que viesse o primeiro beijo o pai chegou, expulsou o rapaz e levou a filha para dentro. Naquela noite decretou que nenhuma das cinco filhas dançaria com rapaz algum, garantindo castigo para quem insistisse. E castigo, ali, nunca era apenas palavra.</p>



<p>Impedido de vê-la, o rapaz escreveu uma carta e arrumou quem a entregasse. A carta chegou às mãos dela, mas o pai soube antes que ela conseguisse ler. Tentou esconder o papel na fresta da parede do quarto, mas não deu tempo. Apanhou. Quando o rapaz ficou sabendo, foi procurá-la à noite, movido mais pela urgência do que por coragem, e propôs que fugissem. Ela não queria desse jeito, mas foi assim mesmo.</p>



<p>O casamento durou menos de um mês. Ela engravidou, ele foi embora, e a menina nasceu sem pai. Mais tarde ela se casou de novo, construiu outra vida, teve dez filhos e encontrou o tipo de felicidade possível. Já o rapaz seguiu sua própria rota: casou e descasou várias vezes, teve muitos filhos, até morrer aos 80 anos, sozinho, num casebre do interior. Algumas histórias acabam desse jeito, cada um ficando com o que sobrou.</p>



<p>A moça dessa história é minha avó. A menina é minha mãe.</p>



<p>Quanto à carta, ninguém sabe o que dizia. Perguntei à minha avó, mas ela não lembra. Ele nunca contou. Nunca o conheci, mas gosto de imaginar que era uma carta simples, talvez uma confissão apressada, talvez só um pedido: venha comigo antes que o mundo nos impeça.</p>
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		<title>O Natal de Outros Tempos</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/12/07/o-natal-de-outros-tempos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Dec 2025 20:51:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Naquele tempo havia pão, esperança e muitas luzes – estou falando do Natal de outros tempos. As casas recebiam suas primeiras árvores no início de outubro, como um prenúncio da chegada do Natal.</p>
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<p>Naquele tempo havia pão, esperança e muitas luzes – estou falando do Natal de outros tempos. As casas recebiam suas primeiras árvores no início de outubro, como um prenúncio da chegada do Natal. As luzes natalinas eram acesas todas as tardes, antecipando a fabulosa data. Dezembro já tinha começado, e só nesta semana percebi, pelas grades do portão da vizinha da frente, ela tentando enfeitar uma pequena árvore. Tímida, com meia dúzia de luzes e quase nenhum enfeite. Presumo que isso se deva à falta de recursos para deixar a árvore mais pomposa, ou talvez ela esteja desesperançada, assim como eu.</p>



<p>Outro dia fui a um estabelecimento e, como quase nada passa despercebido aos olhos de um bom observador, a decoração de Natal também não passou. Na entrada, uma árvore inteiramente branca, os piscas-piscas azuis e os demais enfeites prateados, outros de cor pálida, triste, como tem sido nas últimas décadas. </p>



<p>Quando eu era menino, minha mãe nos levava, a mim e à minha irmã, até a Rua 10, no bairro Francisco Coelho, na região da Velha Marabá, minha cidade natal. Íamos duas vezes por ano: uma no Dia das Crianças, para escolhermos um brinquedo, e outra no Natal, para comprarmos uma roupa, que serviria para as festividades do ano seguinte. Nada me parecia mais mágico do que passar, naquele dia, pelas ruas dos comércios naquele período. As vitrines das lojas estavam todas coloridas, em tons de vermelho, verde e dourado. Cada loja exibia um espetáculo, músicas natalinas, muitas luzes, e uma serenidade nas pessoas. Não por conta do consumismo, mas pelo verdadeiro espírito brasileiro de celebrar a tão esperada data.</p>



<p>À noite, era hora de ir embora. Morávamos em um bairro longínquo, longe do centro, do outro lado da extensa e quilométrica ponte ferroviária. Era uma verdadeira viagem até minha casa. Na volta, mesmo exaurido, eu ficava sonhando com o mundo de luzes do Natal, olhando a fachada das lojas pela janela do ônibus. Em algum momento da viagem, o trem que vinha das minas de Carajás passava ao nosso lado. Aquilo tornava a viagem ainda mais mágica. Era o trem que vinha apitando pela cidade, com suas locomotivas fumaçando, como aqueles trens do século passado, movidos a lenha.</p>



<p>Pois ontem, depois de tantos anos, sonhei com o trem da minha infância, todo iluminado, como só ele sabia ser. De longe, podia-se ouvir o som do seu apito, cortando a noite adentro e desaparecendo na escuridão.</p>
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		<title>Caos e Silêncio</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/11/30/caos-e-silencio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Nov 2025 17:56:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No começo desta semana, fiz uma publicação em uma das minhas redes sociais. Não demorou muito para repercutir negativamente. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p>No começo desta semana, fiz uma publicação em uma das minhas redes sociais. Não demorou muito para que ela repercutisse, e não foi de maneira positiva. Desagradei os dois lados, &#8220;direita e esquerda&#8221;. Embora nunca tenha me posicionado em nenhum deles, acabei perdendo leitores de ambos, mesmo deixando claro que tenho o direito de não gostar de nenhum &#8220;guru&#8221;, seja de qual lado for. Contra minha vontade, sou, por vezes, pressionado a abordar a situação política do nosso país e do mundo. Ando tão mal-informado como sempre, e, de fato, sem entusiasmo para comentar, criticar ou elogiar o cenário atual.</p>



<p>Quando me perguntam de qual lado estou, eu respondo: estou do lado humano, do lado dos menos favorecidos, dos que, por mais de trezentos anos, foram escravizados, abandonados e esquecidos. Estou do lado do trabalhador que, sem descanso, se empenha, dia após dia, para levar o pão do seu suor para casa. Estou do lado do brasileiro que, cansado de pagar impostos exorbitantes, já não vê retorno algum disso. Estou do lado daqueles que entenderam que a verdadeira luta é pela humanidade. Não sou omisso, mas também não sou ingênuo. Sou um observador. Tenho minhas convicções, mas me reconcilio com a ideia de que a palavra — essa é a minha arma. A palavra, e somente ela, me permite tentar compreender o mundo.</p>



<p>A palavra tem razão de ser. Ela muda o homem, e o homem muda o mundo. É por isso que, enquanto o mundo gira e as batalhas se travam, continuarei a usar a única ferramenta que possuo. Prefiro escrever, em forma de crônica, sobre a pressa das formigas, sobre o anjo esculpido em pedra, sobre os barquinhos que deslizam suavemente sobre as ondas do mar — temas que, no fundo, nada têm a ver com as urgências e as inquietações que sacodem a ordem pública da nação. São temas simples, quase antiquados, mas que ainda falam de algo maior, mais permanente.</p>



<p>Penso, sim, naqueles que lutaram bravamente para defender interesses coletivos, que dedicaram toda a sua vida pública ao nacionalismo. Contudo, penso também naqueles que, como eu, já não têm mais forças para nadar contra a maré, que apenas observam, mas não deixam de aproveitar a vida em sua magnitude. Enquanto uns brigam, arruinam amizades de longa data por causa da política e deixam de se falar, outros matam e morrem pelos mesmos motivos. Eu, sigo em silêncio, observando o mundo por um ângulo solitário. Talvez triste, talvez indiferente. Mas sem incomodar ninguém e sem ser incomodado.</p>



<p></p>
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		<title>O Direito de Desistir</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/11/23/o-direito-de-desistir/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Nov 2025 16:59:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há quem acredite que desistir é fracasso. Bobagem das grandes. Se há algo que aprendi com a vida, e com repartições públicas, é que persistir às vezes é só teimosia mal disfarçada.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há quem acredite que desistir é fracasso. Bobagem das grandes. Se há algo que aprendi com a vida, e com repartições públicas, é que persistir às vezes é só teimosia mal disfarçada. Há filas que nascem para jamais andar, senhas que não foram feitas para ser chamadas e promessas que já nascem com obsolescência programada. Mas nós, criaturas otimistas por engano, insistimos. Como se houvesse prêmio no fim da insistência humana. No máximo, há um carimbo.</p>



<p>Outro dia, fui renovar um documento. Saí de casa disposto, convicto de que tudo daria certo. Um erro, evidentemente. Cheguei ao guichê e descobri que faltava uma foto, um comprovante, uma assinatura. Faltava, na verdade, a paciência de Deus. A atendente, com aquela expressão de quem tem o poder de decidir o destino de civilizações inteiras, me informou que nada podia fazer. Uma mentira elegante: podia, sim. Podia, por exemplo, sorrir. Não sorriu.</p>



<p>Pensei então nos conselhos motivacionais que infestam redes sociais. Nunca desista, persista, acredite. Sempre ditados por gente que nunca pegou transporte público às sete da manhã. Persista, sim, mas de preferência num país funcional. Porque acreditar, por aqui, se tornou um esporte radical. Quem insiste demais acaba machucado, geralmente no bolso, às vezes na alma.</p>



<p>Há, no entanto, uma leveza misteriosa em desistir. É como tirar sapatos apertados depois de uma festa em que não queríamos estar. Desistir devolve a dignidade. Encerramos a luta contra a fotocópia que nunca dá certo, contra o site que cai antes do pagamento, contra a esperança de que o sistema vai ser rápido hoje. Não vai. Há diagnósticos que não precisam de exames: basta olhar o funcionário que fecha o guichê na sua vez.</p>



<p>E assim voltei para casa com a mesma papelada intacta. Alguém me perguntou se eu tinha resolvido tudo. Disse que sim: resolvi que não voltarei tão cedo. Nem tudo precisa ser vencido. Há batalhas que ficam mais bonitas quando largadas no meio. Desistir, afinal, é a única vitória garantida que nos resta, e a que exige menos atestado.</p>
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		<item>
		<title>A pressa das coisas</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/11/16/a-pressa-das-coisas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Nov 2025 17:02:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Outro dia notei que até as formigas andam com pressa. Caminham em fila, carregando farelos como se fossem pastas de escritório, cada uma cumprindo sua pequena jornada.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p>Outro dia notei que até as formigas andam com pressa. Caminham em fila, carregando farelos como se fossem pastas de escritório, cada uma cumprindo sua pequena jornada. Fiquei olhando aquilo e me perguntei se também recebiam metas, relatórios, cobranças silenciosas. Talvez seja isso: até bicho pequeno entrou no ritmo moderno — correr, sempre correr — sem saber exatamente para onde, mas indo assim mesmo, porque o resto do formigueiro vai.</p>



<p>Na casa da minha avó, o tempo tinha outra educação. Não apenas cochilava: tomava café, sentava na varanda, observava o quintal. O feijão cozinhava no próprio humor, às vezes mais macio, às vezes rebelde, mas ninguém discutia com ele. Hoje, se a panela atrasar dois minutos, já pensamos em assistência técnica, garantia, defeito de fábrica. Parecemos ter esquecido que as coisas existiam antes de nossa impaciência.</p>



<p>Meu celular, por exemplo, resolveu parar. Me deu um apagão digno de novela antiga: dramaticamente, sem aviso e sem motivo. Fiquei ali, sem mapas, sem recados e, pior, sem a sensação de urgência que me mantém de pé como se fosse obrigação constitucional. É curioso perceber que basta um aparelho desligar para revelar o nosso próprio desligamento — aquele que evitamos admitir para não parecer vulneráveis.</p>



<p>Quando o aparelho finalmente ressuscitou, fez questão de jogar tudo na minha cara: promoções urgentes, mensagens ansiosas, pendências improváveis. Uma avalanche de inutilidades me cobrando atenção. Apaguei tudo com a disciplina de quem tira o pó dos móveis sem acreditar na limpeza. É mais um gesto automático do que convicção.</p>



<p>Pensei então que talvez não seja o mundo que corre demais — somos nós que tentamos alcançá-lo, mesmo quando ele não está indo para lugar algum. As formigas continuam firmes no passo delas. A panela de pressão segue fazendo o possível. E eu… eu sigo também. Se um dia eu travar de novo, não estranhem. Não é pane. Nem drama. É só a vida pedindo um intervalo — coisa que, ao contrário do celular, ninguém vem avisar.</p>
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		<item>
		<title>O Anjo e a Cerveja</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/10/19/o-anjo-e-a-cerveja/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Oct 2025 19:38:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para ser exato: foi no domingo passado. Atravessei a Avenida Dom Henrique Froehlich, a famosa avenida da Saudade, por onde seguia minha caminhada de domingo. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Para ser exato: foi no domingo passado. Atravessei a Avenida Dom Henrique Froehlich, a famosa avenida da Saudade, por onde seguia minha caminhada de domingo. Nem me dei conta de que o fim da travessia das duas vias da larga avenida daria de frente para o velho portão de ferro do cemitério — que, por acaso, ainda urrava na ventania da tarde. Por alguma razão, entrei. Talvez visitar o túmulo do meu pai, ou de algum conhecido que dorme eternamente por lá.</p>



<p>Poucos metros após a entrada, acontecia um sepultamento. Pouca gente, pouco choro — uma cerimônia de íntimos. Não fui conferir quem era o novo morador, embora tivesse curiosidade. Contive-me, em nome da elegância e da civilidade. Segui caminhando entre o labirinto de mármores, pisando o chão áspero. Ali, bem no meio, avistei um anjo.</p>



<p>Era alto, suntuoso, com asas imensas. Não estavam erguidas; as pontas baixas quase tocavam o chão. Não era esbelto como o anjo do poema de Adélia Prado, mas carregava nas asas a melancolia de quem protegeu o mundo — e percebeu que o mundo não precisava tanto assim. Estava sentado sobre uma grande pedra fria, de semblante exaurido.</p>



<p>À tarde, quando o sol declina sobre a cidade, o reflexo nas estátuas brancas transforma-as em seres luminosos. De longe, aquele anjo parecia um semideus; de perto, era comum como nós. Sua beleza se perdia nos detalhes da pedra corroída pela passagem do tempo e pelas chuvas ácidas.</p>



<p>Não sei se já disse aqui, mas é conhecida por muitos a repugnância que tenho da morte, embora pense nela sempiternamente. Não temo os rituais fúnebres, nem o cheiro das velas, tampouco os símbolos mortuários. O que tenho é nojo da morte. Sei que é ela quem dá significado à nossa existência — mas é também uma grande piada com a gente. Benditos são os mortos, pois nada sabem. Nós, vivos, é que sabemos demais: sabemos que iremos um dia para lá e que nunca mais participaremos de nada debaixo do sol. Tudo acaba.</p>



<p>Pensei em tudo isso enquanto atravessava o caminho em direção ao portão do outro lado, que dava saída para a Avenida André Antônio Maggi. Antes de sair, olhei pela última vez para o anjo. Ele me lançara de volta o olhar. Atravessei a avenida, em direção ao bar, pensando na cerveja gelada — e naquele anjo parado, com suas asas gastas, que ficara ali, triste e solitário, numa tarde de domingo.</p>
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		<item>
		<title>As Noites Antigas do Passado</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/10/12/as-noites-antigas-do-passado-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Oct 2025 14:03:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há muito tempo, em criança, eu sonhava ir ao parque de diversões, desses itinerantes que, uma vez por ano, apareciam no bairro onde eu morava. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há muito tempo, em criança, eu sonhava ir ao parque de diversões, desses itinerantes que, uma vez por ano, apareciam no bairro onde eu morava. Todos os dias, ao cair da noite, eu me equilibrava na cerca do quintal da casa. De lá avistava, ao longe, a roda-gigante iluminada em festa. O clarão que se espalhava pelo bairro iluminava também a minha imaginação.</p>



<p>Houve uma época em que não nos sobrava um tostão. Quando sobrava, o pai transformava em destilado. Nesses raros momentos de generosidade, ele prometia me levar ao parque no dia seguinte. Eu acreditava. Os anos passaram e a vontade de ir ao parque se perdeu no costume de não ir. Até que certa vez uma criança mais atrevida perguntou se eu iria naquele dia. Era o último, o ingresso mais barato. Senti inveja. Antes que eu respondesse, ela já havia sumido.</p>



<p>Toda vez que o pai bebia, eu pedia moedas. Juntei o que pude. Precisava garantir as balas, os doces e a maçã do amor, que nunca teve a fama do morango do amor, mas era nobre tal qual. Naquela noite, esperei que o pai e a mãe dormissem. Então fui. Lembro do cheiro de pipoca, mas já era o fim. As luzes se apagavam aos poucos, o som rouco dos alto-falantes anunciava o encerramento. O parque dormia, e eu, pela primeira vez, estava nele.</p>



<p>Décadas depois, voltei a um parque. Mais tecnológicos, mais seguros, mas sem cheiro, sem magia. Tristes. Procurei me esconder atrás do carrinho de pipoca, talvez por timidez, talvez por medo de perder o encanto outra vez. Esbarrei num menino da idade que eu tinha quando esperava o pai cumprir a promessa. Sorriu para mim, correu para o carrossel e subiu num cavalo que girava vagarosamente. Fiquei olhando por alguns minutos. O parque se apagava, os sons se afastavam, e o menino também sumiu entre as luzes e o silêncio. Silêncio quebrado pelo fantasma do passado.</p>
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