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	<title>Kerley Carvalhedo</title>
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	<description>Site oficial do escritor Kerley Carvalhedo</description>
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	<title>Kerley Carvalhedo</title>
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		<title>Se eu morrer amanhã</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Oct 2026 18:05:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2026]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vivo morrendo às vésperas. Quando me perguntam como estou, respondo que não passo desta noite. O problema — ou não — é que sempre passo. E assim me tornei um José, como o do poema de Drummond: “Se você morresse… Mas você não morre”.</p>
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<p>Vivo morrendo às vésperas. Quando me perguntam como estou, respondo que não passo desta noite. O problema — ou não — é que sempre passo. E assim me tornei um José, como o do poema de Drummond: “Se você morresse… Mas você não morre”.</p>



<p>Mas e se eu morrer amanhã? Não levarei saudades da polarização política, nem da direita ou da esquerda, das eleições, tampouco de Lula ou Bolsonaro. Também não sentirei saudades das últimas ex-primeiras-damas do Brasil, embora certamente leve comigo alguma saudade de FHC e de sua amada Ruth Cardoso.</p>



<p>Não sentirei falta dos falsos jantares de negócios, das formalidades nem da alta performance, essa obrigação de estar sempre produzindo, como se até o descanso precisasse apresentar resultados. Tampouco sentirei saudades dos <em>coaches</em> que contribuíram para a multiplicação de imbecis neste país, dos juros altos ou dos impostos exorbitantes. De Brasília, de toda a sua corja com seus grandes impérios, também não levarei saudades.</p>



<p>Se eu morrer amanhã, levarei saudades dos Beatles, do Queen, de Bach, Tchaikovsky e Chopin, mas também de Maria Bethânia, Caetano, Chico Buarque, Elis Regina, Cartola, Rita Lee e Cazuza. Sentirei saudades do forró, do pagode e do Carnaval brasileiro.</p>



<p>Não sentirei falta dos lugares onde não posso ser eu mesmo. Tampouco das reuniões de família ou dos pedidos de perdão — exceto pelas comidas preparadas pelas mãos da minha amada avó.</p>



<p>Das igrejas, apesar da minha admiração pelas liturgias, pelo canto gregoriano, pelas velas e pelo incenso, também não sentirei falta. Para o meu último adeus, dispenso toda e qualquer cerimônia fúnebre. Não quero cultos, missas de sétimo dia, tampouco homenagens. Afinal, já não estarei aqui para recebê-las. Das igrejas, sentirei saudades apenas do vinho e do pecado.</p>



<p>Se eu morrer amanhã, sentirei saudades da minha biblioteca, dos meus discos de vinil, dos bibelôs, dos charutos baianos e das cachaças de alambique.</p>



<p>Não menos importante, não sentirei saudades dos meus eventuais fracassos, da vida conjugal que não tive, da experiência de ser pai que não vivi, das crises existenciais, das rejeições nem do cansaço físico e mental. Tampouco sentirei saudades daquilo que a ausência do meu pai deixou em mim.</p>



<p>Por fim, não sentirei saudades deste mundo, que parece ficar cada vez mais chato e sem graça. Em suma, é melhor me condenar ao esquecimento. Quem sabe assim, caso eu não morra amanhã, consiga viver um pouco mais e melhor.</p>
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		<title>Carta a Neiva</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2026/10/01/carta-a-neiva/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 00:25:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Biblioteca]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neiva, você pode dar uma carona ao meu amigo Kerley quando voltar ao Breu?</p>
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<h1 class="wp-block-heading"></h1>



<p>— Neiva, você pode dar uma carona ao meu amigo Kerley quando voltar ao Breu?</p>



<p>— Sim, querida, sem problemas!</p>



<p>Ao regressarmos naquela noite — ou melhor, naquele início de madrugada — aos nossos lares, eu jamais imaginaria que aquela carona, aparentemente tão casual, seria o prelúdio de uma improvável amizade entre uma professora de Língua e Literatura e um jovem aspirante a escritor.</p>



<p>Lembro-me com absoluta clareza de que, já no caminho de volta para casa, ela me fez a seguinte pergunta:</p>



<p>— Meu filho, você faz o quê da vida?</p>



<p>Com a audácia de um aguerrido sonhador, respondi:</p>



<p>— Eu escrevo!</p>



<p>Entretanto, por dentro, era profundamente inseguro em relação àquele dificílimo ofício. Talvez, com o passar do tempo, eu aprendesse a lidar melhor com essa insegurança.</p>



<p>Após minha resposta, houve alguns segundos de silêncio que pareceram durar horas. Com sua sabedoria e sutileza, ela nos tirou daquele silêncio constrangedor.</p>



<p>A cena que acabo de descrever aconteceu há alguns anos. No entanto, às vezes, fico pensando em como seria minha vida, ou em quem eu seria hoje, se não fosse aquela carona imprevista. Aos poucos, nosso diálogo foi adquirindo um ritmo mais natural e agradável, e o conceito de uma verdadeira amizade começava a se desenhar.</p>



<p>Depois daquele primeiro contato, percebi que havia encontrado mais do que uma professora de Língua e Literatura: havia encontrado uma amiga. Nossos encontros, passeios, viagens e, sobretudo, nossas confidências são testemunhos de momentos intensamente vividos, que construíram essa relação de quase irmandade.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>Neiva, você chegou à minha vida em um momento mais do que oportuno. Se eu acreditasse mais no transcendental, diria que uma divindade a enviou como um presente.</p>



<p>Quando você ler estas palavras, provavelmente estará enfrentando algumas das escolhas mais difíceis de sua vida e, sem dúvida, terá a sensação de que seu mundo está desmoronando. Se estiver se perguntando como sei disso, digamos apenas que passei a conhecê-la muito bem ao longo dos últimos anos.</p>



<p>Sempre me preocupei com você, Neiva. Mas não é exatamente sobre isso que quero falar.</p>



<p>Não posso lhe dizer o que fazer. Tampouco há algo que eu possa fazer para aliviar sua dor. Em vez disso, quero lhe contar uma história clichê.</p>



<p>Você bem sabe que nasci em uma família tradicional e religiosa. Nada de extraordinariamente anormal ou particularmente difícil de suportar dentro dos padrões exigidos durante minha adolescência. Entretanto, foi naquele ambiente que começaram a germinar meu caos interno e minhas neuroses.</p>



<p>Não posso deixar de reconhecer que tive uma boa infância. Fui um garoto como tantos outros, com uma diferença: era uma criança que pensava. Certa vez, ouvi minha mãe dizer:</p>



<p>— Pare de ouvir conversas de adultos! Criança não pensa!</p>



<p>Equívoco dela. Criança pensa, sim. E eu, quando adolescente, pensava ainda mais. Minhas primeiras crises existenciais nasceram justamente dos questionamentos pessoais e das inúmeras perguntas para as quais eu não encontrava respostas.</p>



<p>Desde cedo, apaixonei-me pelas artes, sobretudo pelos livros que me permitiam escapar da modesta vida cotidiana, de um lar empobrecido intelectual e culturalmente. Aquelas histórias me transportavam para as vastas planícies da imaginação. Por essa razão, nunca me senti verdadeiramente sozinho: sempre estive muito bem acompanhado pelos personagens que habitavam meus livros.</p>



<p>Apesar das possíveis felicidades da infância, não posso dizer o mesmo da adolescência. Foi uma fase conturbada, incompreensível até para mim mesmo. Era o momento das minhas descobertas sexuais, uma etapa em que a vida se intensificou de tal maneira que eu já não conseguia vislumbrar a possibilidade de ter uma existência considerada normal.</p>



<p>Entre tristezas, pequenas alegrias e episódios de profunda depressão, pensei diversas vezes em tirar a própria vida. No entanto, talvez a vida ainda tivesse algum propósito reservado para mim, pois nenhuma das minhas tentativas de pôr fim à própria existência teve êxito.</p>



<p>Neiva, quando eu era mais jovem, procurava encontrar uma forma para as coisas, uma razão, um desígnio. Contudo, muito do que acontecia comigo parecia fruto do acaso. Talvez, naquela época, me faltasse ânimo suficiente para viver.</p>



<p>Os anos se passaram, e precisei aprender a lidar com muitos problemas: a ausência da figura paterna, as crises de fé, os conflitos familiares, a depressão e, sobretudo, aquilo que mais me atormentou durante toda a adolescência e parte da juventude: minha sexualidade.</p>



<p>Quando sobrevivi à depressão, ao bullying e ao preconceito, comecei a me perguntar se minha vida não teria algum propósito. Talvez houvesse um caminho reservado para mim, embora eu ainda não conseguisse enxergá-lo.</p>



<p>Quando conheci você, pensei que aquela amizade fosse uma segunda oportunidade de aproveitar as possibilidades que o universo havia decidido me oferecer. Se você tivesse me dado as costas naquele momento, como tantas outras pessoas fizeram em diferentes ocasiões da minha vida, talvez eu jamais tivesse conseguido sair da inércia. Talvez passasse o resto dos meus dias assombrado pelo medo de viver e de enfrentar os problemas que a vida me apresentava.</p>



<p>Jamais me esquecerei das inúmeras vezes em que saímos juntos para nos divertir. Quantas gargalhadas compartilhamos! Quantos brindes fizemos à vida e à nossa amizade! Foram cervejas, viagens, literatura, cinema, compras, passeios e tantas outras experiências.</p>



<p>A vida é caótica, e somos nós que lhe atribuímos sentido. Naqueles dias e noites em que desfrutávamos da companhia um do outro, sabíamos muito bem qual era esse sentido. Sabíamos, melhor ainda, que éramos felizes.</p>



<p>Trago à memória a primeira vez que você veio me visitar em casa. Naquela época, eu já era um leitor, mas ainda estava preso aos best-sellers. Foi ali, dentro do meu escritório, que começou uma conversa capaz de mudar para sempre a trajetória de um jovem escritor.</p>



<p>Lembro-me de você perguntar:</p>



<p>— Meu filho, cadê seus livros?</p>



<p>Com toda a alegria e a imponência de quem acreditava ter uma biblioteca respeitável, comecei a mostrá-los. Nenhum deles, entretanto, ultrapassava os limites da subliteratura e da autoajuda barata.</p>



<p>— Você não sabe o que é literatura! Vamos à Feira do Livro em Belém!</p>



<p>E lá fomos nós. Pela primeira vez, eu pisava em uma feira literária. Pela primeira vez, alguém acreditava verdadeiramente em mim e transformava essa confiança em atitudes concretas.</p>



<p>Foram dias mágicos.</p>



<p>Desde então, algo em mim começou a se organizar em torno de uma paixão sem limites: a paixão pelos livros e pela literatura.</p>



<p>Nunca ninguém me olhou com tanta generosidade e carinho como você. Lembro-me dos versos de Vinicius de Moraes: eu poderia suportar a perda de muitos amores, mas enlouqueceria se perdesse todos os meus amigos. Seria insuportável enfrentar a realidade da vida sem algum tipo de escapismo.</p>



<p>Sei que, nesta vida, as perdas são inevitáveis. Convivi com as emoções, com o medo, com o temor e com o assombro de diferentes episódios. Não brindamos apenas à vida e às alegrias; brindamos também aos nossos mortos e às nossas tristezas.</p>



<p>Fiquei desolado quando perdi a Luana e, pouco depois, o Helson. Você também perdeu a Margot. Juntos, choramos e lamentamos nossas perdas.</p>



<p>Nós, seres humanos, temos vocação para o amor e, sobretudo, para a vida.</p>



<p>Não pense que vou perder você também. Não posso, não agora. Ainda temos muito a fazer, muitos lugares a conhecer e muitas histórias a compartilhar.</p>



<p>Penso, às vezes, em como sou leviano ao escrever estas palavras justamente em um momento tão difícil da sua vida. Talvez não seja o momento mais adequado para uma carta como esta. Mas é o que sinto agora. Afinal, a literatura é isso: não é superficialidade, é uma perfuração profunda na vertical. É uma tentativa de alcançar as camadas mais íntimas da existência. A literatura fala das coisas profundas da vida. É folhetim, é confissão, é a própria vida transformada em palavras.</p>



<p>Quando você me ameaçou deixar, ainda durante sua cirurgia, escrevi-lhe uma carta. Entretanto, não tive coragem de enviá-la. Talvez por medo, talvez por covardia. Todas aquelas palavras foram incorporadas à carta anterior, mas somente agora encontrei coragem para reescrevê-las e acrescentar outras tantas.</p>



<p>Não me preocupei em corrigir o estilo ou aperfeiçoar a coerência gramatical. Aqui estão meus sentimentos, fragmentados em palavras, exatamente como se apresentam dentro de mim.</p>



<p>Confesso que estes últimos meses sem você por perto têm sido muito difíceis e tediosos. Sinto sua falta. Sinto falta das nossas conversas, da sua companhia e de tudo aquilo que construímos juntos.</p>



<p>Em uma dessas noites, saí com alguns amigos. Queria me distrair, esquecer um pouco os problemas e voltar para casa com o espírito mais leve. Entretanto, depois de chegar em casa, já sem o efeito do álcool e com a cabeça mais racional, afundei novamente em perguntas sem respostas. Diante da sobriedade, deparei-me com a imensidão das minhas próprias ilusões.</p>



<p>Eu estava sozinho, com as cortinas fechadas, a porta trancada e um silêncio quase fúnebre ao meu redor.</p>



<p>Naquela noite, entre a ausência dos amores, a saudade dos amigos vivos e a lembrança daqueles que já partiram, senti a solidão devorar-me como um lobo faminto que ataca vorazmente sua frágil presa.</p>



<p>Mas, deixando esse melodrama de lado, quero agradecer a você por tudo o que já fez por mim. Pelas pequenas e grandes alegrias. Ao seu lado, aprendi a ser uma pessoa melhor. Aprendi a evoluir como ser humano, a ler melhor, a me expressar melhor e a enxergar o mundo de outro ângulo, de maneira mais ampla.</p>



<p>Aprendi também a aceitar minha própria natureza. Aprendi o verdadeiro significado da felicidade, aquela que não precisa ser anunciada, fotografada ou exposta. Uma felicidade discreta, sem fotos, sem filtros, sem selfies e sem a necessidade de aprovação alheia.</p>



<p>Ah, essa felicidade! Espero que ela resista a todas as ciladas do tempo.</p>



<p>Você me apresentou um lado da vida que eu desconhecia. Colocou em minhas mãos uma chave capaz de abrir as portas do desconhecido. Hoje, sinto-me livre das correntes de uma consciência imposta por outras pessoas. Hoje, estou vivendo e dando provas da minha existência.</p>



<p>Quisera eu que todos pudessem viver livres de suas próprias amarras e dos limites que lhes são impostos.</p>



<p>Você não teve filhos, mas inspirou um garoto do interior do estado, que, um dia, levará adiante essa inspiração pelo mundo afora. Não se trata de um pensamento de grandeza, mas de alguém que sabe aonde quer chegar.</p>



<p>Lewis Carroll escreveu que, se não sabemos aonde queremos ir, qualquer caminho serve. Não é o meu caso. Sei muito bem aonde quero chegar. Posso até não alcançar meu destino, mas, de alguma maneira, chegarei a algum lugar.</p>



<p>Sou completamente devoto a este ofício: escrever. Você sabe muito bem disso!</p>



<p>Obrigado por ter me apontado, incansavelmente, o caminho que devo trilhar. Obrigado pelas vezes em que me acompanhou em meus projetos, nas entrevistas e até mesmo na minha posse na Academia de Letras.</p>



<p>Obrigado também pelos presentes e por todas as demonstrações de carinho e generosidade.</p>



<p>Nunca poderei retribuir tudo o que você fez por mim à altura. Mas farei o possível para que nossa amizade continue cada vez mais sólida, sincera e verdadeira.</p>



<p>Não sei onde você está agora, nem como está enfrentando tudo isso. Sei apenas que espero que volte logo, como aconteceu das outras vezes. Tenho me acostumado à sua ausência, embora nunca tenha aprendido a lidar inteiramente com ela.</p>



<p>Por isso, faço-lhe um pedido discreto: não fraqueje.</p>



<p>Espero por você outra vez. Espero que possamos repetir tudo de novo, que ainda tenhamos muitas viagens, conversas, brindes, gargalhadas e histórias para contar.</p>



<p>Mas, se isso não acontecer, saiba que os últimos anos foram os melhores da minha vida.</p>



<p>Eu amo quem sou quando estou com você, Neiva. Você é minha amiga mais querida, a expressão mais profunda de fraternidade que já experimentei. Você representa uma das melhores partes de mim.</p>



<p>Amo-te muito. Você é incrível!</p>
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		<title>A última viagem</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2026/09/22/a-ultima-viagem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Sep 2026 13:05:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2026]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje o Brasil está enlutado. Sobretudo o meu coração. Logo cedo, abri os grupos de WhatsApp e descobri a morte de uma amiga, uma produtora cultural que se foi cedo demais.</p>
<p>O conteúdo <a rel="nofollow" href="https://kerleycarvalhedo.com/2026/09/22/a-ultima-viagem/">A última viagem</a> aparece primeiro em <a rel="nofollow" href="https://kerleycarvalhedo.com">Kerley Carvalhedo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h1 class="wp-block-heading"></h1>



<p>Hoje o Brasil está enlutado. Sobretudo o meu coração. Logo cedo, abri os grupos de WhatsApp e descobri a morte de uma amiga, uma produtora cultural que se foi cedo demais. Rose Monteiro, mulher de talento, sensibilidade e enorme contribuição para a arte e a cultura de Tucuruí, no Pará. Rose lutava contra um AVC, mas, apesar dos esforços da equipe médica, não resistiu. Abro o Instagram e os jornais noticiam também a morte do jornalista e escritor Zuenir Ventura, aos 95 anos. Uma carreira exemplar, mais de seis décadas acompanhando acontecimentos importantes da história do Brasil e transformando parte de sua experiência de repórter em livros que se tornaram referências do jornalismo e da literatura brasileira. Não bastasse isso, mais um obituário: agora o do cantor Rick, da dupla Rick e Renner. Só isso já seria suficiente para fechar todas as redes sociais e viver, em silêncio, esse luto coletivo.</p>



<p>Fiquei pensando não apenas na última viagem de Rick, que jamais imaginaria que seria a sua última. A gente vive como se não fosse fazer a última viagem. Nós iremos, porém não sabemos quando. Talvez seja esse o grande engano da vida: acreditarmos que sempre haverá outra oportunidade, outro encontro, outro abraço, outro dia. A vida vai passando e nós vamos adiando.</p>



<p>Quisera todos nós pudéssemos viver sem tantas amarras e sem esses limites ferozes que inventamos para nós mesmos. Não deveríamos ter tantos pudores, nem deixar tanto para depois. Você provavelmente já leu que depois o café esfria. E, de fato, esfria. Somos colecionadores de “depois”. Depois eu abraço, depois eu digo que amo, depois eu perdoo, depois eu visito. E, quando percebemos, alguns desses “depois” já não existem.</p>



<p>A verdade é que só temos o hoje. Deixar para amanhã é correr o risco de o amanhã não chegar. Então, por que não oferecer hoje o amor que podemos oferecer? Por que economizar um abraço, uma palavra, uma visita, um pedido de perdão? A vida não nos avisa qual será o último café, a última conversa, o último beijo ou a última viagem. Talvez seja justamente por isso que devêssemos prestar mais atenção ao que ainda temos.</p>



<p>Gosto de pensar que estou aqui e que, um dia, já não estarei. A vida é maravilhosa, mas tudo acaba. Para alguns, a morte é o fim de tudo; para outros, não é o fim, mas a volta para casa. Não sei qual das duas respostas é a verdadeira. Mas sei que, enquanto a nossa última viagem não chega, ainda podemos escolher como viver esta viagem que nos foi dada.</p>
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		<item>
		<title>Falso apoio</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2026/02/08/falso-apoio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Feb 2026 21:04:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2026]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ontem estive na casa de um amigo e fui recebido por um susto doméstico, desses que não fazem barulho. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[




<p>Ontem estive na casa de um amigo e fui recebido por um susto doméstico, desses que não fazem barulho. Logo na entrada da sala, à esquerda, havia uma poltrona vermelha. Não era qualquer poltrona: era a mesma que me acompanhou por quase vinte anos, ou pelo menos sua duplicata perfeita. A cor, o desgaste nos braços, o jeito ligeiramente inclinado para a direita — tudo conspirava contra a ideia de coincidência. Fiquei parado alguns segundos, como quem reencontra um morto que insiste em respirar.</p>



<p>A minha, convém dizer, tinha apenas três pés. O quarto se perdera em alguma mudança ou bebedeira antiga, e o equilíbrio era mantido por uma engenhoca improvisada: livros grossos, respeitáveis, que sustentavam tanto a estrutura quanto certos períodos da minha vida. Um dicionário catalão-espanhol, um ensaio geopolítico de Kaplan e um Sowell que eu fingia reler. Naquela poltrona li demais, bebi o suficiente e amei quando ainda não tinha a pretensão de escrever sobre isso.</p>



<p>Ela fazia parte de um pequeno ecossistema afetivo: o sofá amarelo manchado de vinho, o colchão vencido num dos lados, e aquela poltrona manca que era sempre a primeira a ser disputada. Ali vivi romances breves e intensos, que terminavam antes de virar literatura. Era um tempo em que a vida vinha antes da frase, e não o contrário. A poltrona, hoje vejo, sustentava mais do que meu peso.</p>



<p>Ao vê-la na casa do amigo, pensei imediatamente em resgate. Se ele dissesse que a tinha adquirido há poucos anos, eu faria uma oferta indecorosa. Mas a dona da casa, percebendo meu olhar fixo demais, informou com naturalidade que a poltrona os acompanhava há duas décadas. Não era a minha. Era apenas uma irmã gêmea, saída da mesma fábrica, talvez do mesmo turno. Soube ali, com atraso, que seu nome de batismo era Liverpool. Para mim, sempre foi a Três Pés.</p>



<p>Voltei para casa e procurei os livros que um dia a escoraram. Estavam numa estante alta, intactos, como se nunca tivessem servido a outro propósito. Folheei um deles sem atenção. Nenhum deles sustentava mais nada.</p>
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		<item>
		<title>Futilidade</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2026/02/01/futilidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Feb 2026 18:07:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2026]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sou avesso a gastos, desses que só acontecem quando a necessidade empurra. Comprar, para mim, é quase sempre virtual, impessoal, sem cheiro nem conversa. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sou avesso a gastos, desses que só acontecem quando a necessidade empurra. Comprar, para mim, é quase sempre virtual, impessoal, sem cheiro nem conversa. Ainda assim, naquele domingo inútil, saí de casa sem destino e fui parar numa dessas feiras ao ar livre, onde se vende de tudo: bugigangas, restos de memória, coisas que já não têm nome. Deus é testemunha de que eu não queria comprar nada. Tampouco vender. Só passar.</p>

<p>Caminhei devagar entre as barracas, observando o vai-e-vem de negociantes confiantes na própria lábia. Não funcionou comigo. Havia ali objetos que atravessaram gerações sem saber por quê: santos, estatuetas, bibelôs, palavra antiga, quase esquecida, como os dedos que um dia os colocaram em prateleiras limpas demais. Coisas pequenas, sobreviventes do tempo.</p>

<p>Olhei no relógio. Era hora de ir embora. Acelerei o passo em direção ao carro e, ainda dentro da feira, tentei desviar de uma senhora à minha frente. Não consegui. Por azar, ou distração, esbarrei numa barraca de santos e quinquilharias. As imagens balançaram como num terremoto doméstico. Um anjo caiu aos meus pés. Pequeno. Antigo. Com a asa quebrada.</p>

<p>Fiquei olhando aquele anjo no chão, indefeso, como se tivesse sido derrubado pela própria fé. Paguei o valor pedido sem discutir. Minha futilidade do dia. Levei-o para casa e o coloquei na estante, junto das outras miniaturas que não cumprem função alguma além de existir. A asa partida parecia menos um defeito e mais uma interrupção.</p>

<p>Agora, toda vez que vou sair, olho para o anjo. Ele olha de volta. Não me acusa. Não consola. Apenas lembra que algumas quedas acontecem sem aviso, e ficam.</p>
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		<title>A carta</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/12/21/a-carta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Dec 2025 19:19:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi há 65 anos, no início dos anos 60. Ela tinha 15 anos. Ele, 17. Ela do interior, ele da cidade. Nada extraordinário nisso. </p>
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<p>Foi há 65 anos, no início dos anos 60. Ela tinha 15 anos e ele, 17. Ela vinda do interior, ele da cidade grande. Nada muito extraordinário nisso. O pai dela organizava as chamadas matinês, que na verdade eram forrós de chão batido. Ele mesmo tocava pife, aquele instrumento simples feito de madeira, taboca ou o que houvesse à mão. Era o som possível, e era o suficiente.</p>



<p>Numa dessas tardes o rapaz apareceu. No interior, aparecer já é um acontecimento. A garota era bonita, apesar da vida dura de retirante, e não perdia uma roda de forró. Ele a viu de longe, aproximou-se, estendeu a mão e ela aceitou sem pensar muito. Dançaram como se já soubessem que aquela dança duraria pouco, mas ainda assim importava.</p>



<p>O pai dela percebeu logo. Pais costumam perceber quando já é tarde. Proibiu os dois de se encontrarem, mas houve ainda um último momento. Ele disse que a amava, ela disse que também amava, e antes que viesse o primeiro beijo o pai chegou, expulsou o rapaz e levou a filha para dentro. Naquela noite decretou que nenhuma das cinco filhas dançaria com rapaz algum, garantindo castigo para quem insistisse. E castigo, ali, nunca era apenas palavra.</p>



<p>Impedido de vê-la, o rapaz escreveu uma carta e arrumou quem a entregasse. A carta chegou às mãos dela, mas o pai soube antes que ela conseguisse ler. Tentou esconder o papel na fresta da parede do quarto, mas não deu tempo. Apanhou. Quando o rapaz ficou sabendo, foi procurá-la à noite, movido mais pela urgência do que por coragem, e propôs que fugissem. Ela não queria desse jeito, mas foi assim mesmo.</p>



<p>O casamento durou menos de um mês. Ela engravidou, ele foi embora, e a menina nasceu sem pai. Mais tarde ela se casou de novo, construiu outra vida, teve dez filhos e encontrou o tipo de felicidade possível. Já o rapaz seguiu sua própria rota: casou e descasou várias vezes, teve muitos filhos, até morrer aos 80 anos, sozinho, num casebre do interior. Algumas histórias acabam desse jeito, cada um ficando com o que sobrou.</p>



<p>A moça dessa história é minha avó. A menina é minha mãe.</p>



<p>Quanto à carta, ninguém sabe o que dizia. Perguntei à minha avó, mas ela não lembra. Ele nunca contou. Nunca o conheci, mas gosto de imaginar que era uma carta simples, talvez uma confissão apressada, talvez só um pedido: venha comigo antes que o mundo nos impeça.</p>
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		<title>O Natal de Outros Tempos</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/12/07/o-natal-de-outros-tempos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Dec 2025 20:51:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Naquele tempo havia pão, esperança e muitas luzes – estou falando do Natal de outros tempos. As casas recebiam suas primeiras árvores no início de outubro, como um prenúncio da chegada do Natal.</p>
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<p>Naquele tempo havia pão, esperança e muitas luzes – estou falando do Natal de outros tempos. As casas recebiam suas primeiras árvores no início de outubro, como um prenúncio da chegada do Natal. As luzes natalinas eram acesas todas as tardes, antecipando a fabulosa data. Dezembro já tinha começado, e só nesta semana percebi, pelas grades do portão da vizinha da frente, ela tentando enfeitar uma pequena árvore. Tímida, com meia dúzia de luzes e quase nenhum enfeite. Presumo que isso se deva à falta de recursos para deixar a árvore mais pomposa, ou talvez ela esteja desesperançada, assim como eu.</p>



<p>Outro dia fui a um estabelecimento e, como quase nada passa despercebido aos olhos de um bom observador, a decoração de Natal também não passou. Na entrada, uma árvore inteiramente branca, os piscas-piscas azuis e os demais enfeites prateados, outros de cor pálida, triste, como tem sido nas últimas décadas. </p>



<p>Quando eu era menino, minha mãe nos levava, a mim e à minha irmã, até a Rua 10, no bairro Francisco Coelho, na região da Velha Marabá, minha cidade natal. Íamos duas vezes por ano: uma no Dia das Crianças, para escolhermos um brinquedo, e outra no Natal, para comprarmos uma roupa, que serviria para as festividades do ano seguinte. Nada me parecia mais mágico do que passar, naquele dia, pelas ruas dos comércios naquele período. As vitrines das lojas estavam todas coloridas, em tons de vermelho, verde e dourado. Cada loja exibia um espetáculo, músicas natalinas, muitas luzes, e uma serenidade nas pessoas. Não por conta do consumismo, mas pelo verdadeiro espírito brasileiro de celebrar a tão esperada data.</p>



<p>À noite, era hora de ir embora. Morávamos em um bairro longínquo, longe do centro, do outro lado da extensa e quilométrica ponte ferroviária. Era uma verdadeira viagem até minha casa. Na volta, mesmo exaurido, eu ficava sonhando com o mundo de luzes do Natal, olhando a fachada das lojas pela janela do ônibus. Em algum momento da viagem, o trem que vinha das minas de Carajás passava ao nosso lado. Aquilo tornava a viagem ainda mais mágica. Era o trem que vinha apitando pela cidade, com suas locomotivas fumaçando, como aqueles trens do século passado, movidos a lenha.</p>



<p>Pois ontem, depois de tantos anos, sonhei com o trem da minha infância, todo iluminado, como só ele sabia ser. De longe, podia-se ouvir o som do seu apito, cortando a noite adentro e desaparecendo na escuridão.</p>
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		<title>Caos e Silêncio</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/11/30/caos-e-silencio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Nov 2025 17:56:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No começo desta semana, fiz uma publicação em uma das minhas redes sociais. Não demorou muito para repercutir negativamente. </p>
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<p>No começo desta semana, fiz uma publicação em uma das minhas redes sociais. Não demorou muito para que ela repercutisse, e não foi de maneira positiva. Desagradei os dois lados, &#8220;direita e esquerda&#8221;. Embora nunca tenha me posicionado em nenhum deles, acabei perdendo leitores de ambos, mesmo deixando claro que tenho o direito de não gostar de nenhum &#8220;guru&#8221;, seja de qual lado for. Contra minha vontade, sou, por vezes, pressionado a abordar a situação política do nosso país e do mundo. Ando tão mal-informado como sempre, e, de fato, sem entusiasmo para comentar, criticar ou elogiar o cenário atual.</p>



<p>Quando me perguntam de qual lado estou, eu respondo: estou do lado humano, do lado dos menos favorecidos, dos que, por mais de trezentos anos, foram escravizados, abandonados e esquecidos. Estou do lado do trabalhador que, sem descanso, se empenha, dia após dia, para levar o pão do seu suor para casa. Estou do lado do brasileiro que, cansado de pagar impostos exorbitantes, já não vê retorno algum disso. Estou do lado daqueles que entenderam que a verdadeira luta é pela humanidade. Não sou omisso, mas também não sou ingênuo. Sou um observador. Tenho minhas convicções, mas me reconcilio com a ideia de que a palavra — essa é a minha arma. A palavra, e somente ela, me permite tentar compreender o mundo.</p>



<p>A palavra tem razão de ser. Ela muda o homem, e o homem muda o mundo. É por isso que, enquanto o mundo gira e as batalhas se travam, continuarei a usar a única ferramenta que possuo. Prefiro escrever, em forma de crônica, sobre a pressa das formigas, sobre o anjo esculpido em pedra, sobre os barquinhos que deslizam suavemente sobre as ondas do mar — temas que, no fundo, nada têm a ver com as urgências e as inquietações que sacodem a ordem pública da nação. São temas simples, quase antiquados, mas que ainda falam de algo maior, mais permanente.</p>



<p>Penso, sim, naqueles que lutaram bravamente para defender interesses coletivos, que dedicaram toda a sua vida pública ao nacionalismo. Contudo, penso também naqueles que, como eu, já não têm mais forças para nadar contra a maré, que apenas observam, mas não deixam de aproveitar a vida em sua magnitude. Enquanto uns brigam, arruinam amizades de longa data por causa da política e deixam de se falar, outros matam e morrem pelos mesmos motivos. Eu, sigo em silêncio, observando o mundo por um ângulo solitário. Talvez triste, talvez indiferente. Mas sem incomodar ninguém e sem ser incomodado.</p>




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		<item>
		<title>O Direito de Desistir</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/11/23/o-direito-de-desistir/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Nov 2025 16:59:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há quem acredite que desistir é fracasso. Bobagem das grandes. Se há algo que aprendi com a vida, e com repartições públicas, é que persistir às vezes é só teimosia mal disfarçada.</p>
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<p>Há quem acredite que desistir é fracasso. Bobagem das grandes. Se há algo que aprendi com a vida, e com repartições públicas, é que persistir às vezes é só teimosia mal disfarçada. Há filas que nascem para jamais andar, senhas que não foram feitas para ser chamadas e promessas que já nascem com obsolescência programada. Mas nós, criaturas otimistas por engano, insistimos. Como se houvesse prêmio no fim da insistência humana. No máximo, há um carimbo.</p>



<p>Outro dia, fui renovar um documento. Saí de casa disposto, convicto de que tudo daria certo. Um erro, evidentemente. Cheguei ao guichê e descobri que faltava uma foto, um comprovante, uma assinatura. Faltava, na verdade, a paciência de Deus. A atendente, com aquela expressão de quem tem o poder de decidir o destino de civilizações inteiras, me informou que nada podia fazer. Uma mentira elegante: podia, sim. Podia, por exemplo, sorrir. Não sorriu.</p>



<p>Pensei então nos conselhos motivacionais que infestam redes sociais. Nunca desista, persista, acredite. Sempre ditados por gente que nunca pegou transporte público às sete da manhã. Persista, sim, mas de preferência num país funcional. Porque acreditar, por aqui, se tornou um esporte radical. Quem insiste demais acaba machucado, geralmente no bolso, às vezes na alma.</p>



<p>Há, no entanto, uma leveza misteriosa em desistir. É como tirar sapatos apertados depois de uma festa em que não queríamos estar. Desistir devolve a dignidade. Encerramos a luta contra a fotocópia que nunca dá certo, contra o site que cai antes do pagamento, contra a esperança de que o sistema vai ser rápido hoje. Não vai. Há diagnósticos que não precisam de exames: basta olhar o funcionário que fecha o guichê na sua vez.</p>



<p>E assim voltei para casa com a mesma papelada intacta. Alguém me perguntou se eu tinha resolvido tudo. Disse que sim: resolvi que não voltarei tão cedo. Nem tudo precisa ser vencido. Há batalhas que ficam mais bonitas quando largadas no meio. Desistir, afinal, é a única vitória garantida que nos resta, e a que exige menos atestado.</p>
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		<title>A pressa das coisas</title>
		<link>https://kerleycarvalhedo.com/2025/11/16/a-pressa-das-coisas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kerley Carvalhedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Nov 2025 17:02:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Outro dia notei que até as formigas andam com pressa. Caminham em fila, carregando farelos como se fossem pastas de escritório, cada uma cumprindo sua pequena jornada.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[




<p>Outro dia notei que até as formigas andam com pressa. Caminham em fila, carregando farelos como se fossem pastas de escritório, cada uma cumprindo sua pequena jornada. Fiquei olhando aquilo e me perguntei se também recebiam metas, relatórios, cobranças silenciosas. Talvez seja isso: até bicho pequeno entrou no ritmo moderno — correr, sempre correr — sem saber exatamente para onde, mas indo assim mesmo, porque o resto do formigueiro vai.</p>



<p>Na casa da minha avó, o tempo tinha outra educação. Não apenas cochilava: tomava café, sentava na varanda, observava o quintal. O feijão cozinhava no próprio humor, às vezes mais macio, às vezes rebelde, mas ninguém discutia com ele. Hoje, se a panela atrasar dois minutos, já pensamos em assistência técnica, garantia, defeito de fábrica. Parecemos ter esquecido que as coisas existiam antes de nossa impaciência.</p>



<p>Meu celular, por exemplo, resolveu parar. Me deu um apagão digno de novela antiga: dramaticamente, sem aviso e sem motivo. Fiquei ali, sem mapas, sem recados e, pior, sem a sensação de urgência que me mantém de pé como se fosse obrigação constitucional. É curioso perceber que basta um aparelho desligar para revelar o nosso próprio desligamento — aquele que evitamos admitir para não parecer vulneráveis.</p>



<p>Quando o aparelho finalmente ressuscitou, fez questão de jogar tudo na minha cara: promoções urgentes, mensagens ansiosas, pendências improváveis. Uma avalanche de inutilidades me cobrando atenção. Apaguei tudo com a disciplina de quem tira o pó dos móveis sem acreditar na limpeza. É mais um gesto automático do que convicção.</p>



<p>Pensei então que talvez não seja o mundo que corre demais — somos nós que tentamos alcançá-lo, mesmo quando ele não está indo para lugar algum. As formigas continuam firmes no passo delas. A panela de pressão segue fazendo o possível. E eu… eu sigo também. Se um dia eu travar de novo, não estranhem. Não é pane. Nem drama. É só a vida pedindo um intervalo — coisa que, ao contrário do celular, ninguém vem avisar.</p>
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