Kerley Carvalhedo

Ontem estive na casa de um amigo e fui recebido por um susto doméstico, desses que não fazem barulho. Logo na entrada da sala, à esquerda, havia uma poltrona vermelha. Não era qualquer poltrona: era a mesma que me acompanhou por quase vinte anos, ou pelo menos sua duplicata perfeita. A cor, o desgaste nos braços, o jeito ligeiramente inclinado para a direita — tudo conspirava contra a ideia de coincidência. Fiquei parado alguns segundos, como quem reencontra um morto que insiste em respirar.

A minha, convém dizer, tinha apenas três pés. O quarto se perdera em alguma mudança ou bebedeira antiga, e o equilíbrio era mantido por uma engenhoca improvisada: livros grossos, respeitáveis, que sustentavam tanto a estrutura quanto certos períodos da minha vida. Um dicionário catalão-espanhol, um ensaio geopolítico de Kaplan e um Sowell que eu fingia reler. Naquela poltrona li demais, bebi o suficiente e amei quando ainda não tinha a pretensão de escrever sobre isso.

Ela fazia parte de um pequeno ecossistema afetivo: o sofá amarelo manchado de vinho, o colchão vencido num dos lados, e aquela poltrona manca que era sempre a primeira a ser disputada. Ali vivi romances breves e intensos, que terminavam antes de virar literatura. Era um tempo em que a vida vinha antes da frase, e não o contrário. A poltrona, hoje vejo, sustentava mais do que meu peso.

Ao vê-la na casa do amigo, pensei imediatamente em resgate. Se ele dissesse que a tinha adquirido há poucos anos, eu faria uma oferta indecorosa. Mas a dona da casa, percebendo meu olhar fixo demais, informou com naturalidade que a poltrona os acompanhava há duas décadas. Não era a minha. Era apenas uma irmã gêmea, saída da mesma fábrica, talvez do mesmo turno. Soube ali, com atraso, que seu nome de batismo era Liverpool. Para mim, sempre foi a Três Pés.

Voltei para casa e procurei os livros que um dia a escoraram. Estavam numa estante alta, intactos, como se nunca tivessem servido a outro propósito. Folheei um deles sem atenção. Nenhum deles sustentava mais nada.